segunda-feira, 10 de março de 2008

Mudança

Tenho a cabeça pesada como as caixas em que ergo minha vida pronta, anteriormente criada.


Os sacos pretos não escondem a alma insolente, ela transparece diante do mínimo toque. É malcriada, vadia. A qualquer sinal de intromissão, ela vomita suas vontades insalubres, podres.


É o lixo estocado pelos anos de pálpebras cerradas que a faz trancafiar-se em plásticos escuros. E logo ele será jogado fora, como se nunca tivesse sido útil. As memórias não cabem nas caixas de papelão. Carrego-as pelas costas, como um fardo, com um cansaço de quem tem a função habitual e assalariada de lembrar-se.


As escadas a que me acostumei não são suficientemente íngrimes e os degraus são baixos demais.



Tudo muito apertado para a amplitude da minha defesa.


Toda mudança é baixa. É baixa para que possa crescer.
E silente para que possa tornar-se.

O tédio, na sacada que poderia existir, é só meu.
E a cama quente, ao tentar confortar a cabeça-mãe, atormentada por preocupações cotidianas, afoga as esperanças de uma mente vã e mesquinha, que, agora, só quer saber de se ausentar.


Os sonhos já não são meus: foram-me preparados para que, dormindo, eu os tivesse em contemplação tardia, mas real. Meu inconsciente tornou-se consciente de si. Fumaça do meu ego.
As escolhas foram-me matematicamente projetadas, sem que, ao menos, eu as desejasse. E são fiscalizadas, dia-a-dia, pelo patrão ao lado, para que não nasça nenhum erro psico-social.


Torna o tempo a traduzir-se em perda e a última porta trancada me espera.


É a porta de madeira entre a separação e o adeus. Não tenho a chave.

É assim que vivo: esperando que alguém abra a porta, completamente, para mim
.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

www.releituras.com

Para Dalila

Para Dalila




Nunca me esquecerei daquele sorriso de despedida e do pequeno diário que me foi entregue no dia em que a máscara caiu. Seus cabelos negros – tão longos quanto o amor que eu jamais sentiria novamente - eram poder e força; mas seu nome era Dalila. Minha Dalila.


Os olhos calmos e azuis se confundiam com sorrisos constantes e a auréola da inocência parecia-lhe transbordar da alma. Alegria, calma e sinceridade a compunham. Assim era minha pequena ou pelo menos, assim eu pensava ser.


Eu era seu professor de História e a História foi a grande responsável pelo nosso amor proibido. Morávamos em uma cidadezinha conservadora e retrógrada ao sul da Espanha e foi na primavera do ano de 1939 que inciou-se a minha desgraça. Naquele ano, Dalila e eu nos enamoramos. Era um namoro secreto e minha pequena insistia em mantermos em silêncio a nossa paixão. Eu não entendia bem o porquê; Dalila explicava-se dizendo que eu era muito “velho” para se relacionar com ela, e que a sociedade e a escola em que eu lecionava não “nos” aceitariam como amantes. Foi também no ano de 1939 que se iniciou a ditadura franquista - mais um motivo para não nos envolvermos; o motivo maldito da minha eterna saudade. Dalila estava certa.


Tudo começou com alguns tímidos olhares, para que viessem os bilhetinhos e, por fim, as cartas de amor e os beijos apaixonados. Dalila e eu fugíamos para um mundo só nosso, entretanto, quando em público, vivíamos de aparências, como meros professor e aluna. Éramos atores, personagens de um mundo de amor e de sonhos e a nossa vida era um palco, uma peça teatral (creio, hoje, uma tragédia). E a garotinha tão jovem, tão inocente, tão perdida de si, fez-me eterno perdido e arruinou-me a vida, despedançando-me a alma.


Nossos freqüentes encontros no bosque do colégio se tornavam cada vez mais perigosos. Sua família já estava desconfiada, alguns alunos já comentavam e então, para o meu desgosto, acabei sendo expulso do colégio. A notícia de nosso amor se espalhava pela cidade e as pessoas todas se horrorizavam: não era nada fácil viver em uma sociedade moral-cristã, regada pela hipocrisia e ignorânica, e, mesmo assim, eu nunca abandonei minha pequena; pelo contrário, amava-a cada vez mais.


Marquei, então, um encontro com Dalila na Igreja da praça central. O dia estava calmo, o calor era intenso e o ar parado, como se algo de ruim fosse acontecer a qualquer momento. Dalila acenou e fez um sinal com as mãos para que eu fosse encontrá-la na sorveteria da esquina. E eu, sem saber que seria esse o dia do meu infinito martírio, fui até a sorveteria, sentei-me, olhei-a e a amei em silêncio.


A pequenina trazia algo nas mãos, algo como um livro. E realmente o era - era o livro tardio de sua vida. Com suas mãos de anjo, Dalila me entregou o livro, sorrindo, sorrindo um sorriso de despedida – podia jurar ter visto uma lágrima cair-lhe da face. Então aconteceu aquilo com o que até hoje eu não me conformo: a pequenina, a inocente, a alegre e pura Dalila foi presa, na minha frente, pelos policiais franquistas. Pasmo, sem saber o que fazer, fiquei ali, paralisado, implorando por misericórdia.


As mãos de anjo da criança foram arrancadas das minhas mãos de mestre.

Os franquistas não levaram minha pequena pelas mãos: levaram-na pelos cabelos, arrastando sua face contra o chão sujo da praça e mesmo assim, sempre feliz, Dalila sorria. Foi então que percebi que os cabelos de Dalila não significavam força, não significavam nada senão mentiras.


Gritei durante horas, chorei durante dias e amei, amei e amei. A ausência dela era minha dor presente e, já quase desistindo da vida, de súbito me veio a lembrança do livro que Dalila havia me entregado naquela tarde desvairada. Peguei-o e li. Li até que meus olhos (inchados de tanto chorar) e minha mente me impediram de continuar. O que Dalila havia me entregado era um diário, seu diário, que contava nada mais que toda a sua vida, que narrava nada mais que sua essência e natureza, que me mostrou quem era a verdadeira pequena, sem máscaras ou mentiras. Eu realmente não a conhecia.


Acho que os escritos eram mais uma confissão, um pedido de perdão, do que um diário.

Dalila começou falando sobre seu namoro de três anos com Gavin, um garoto basco que eu não conhecia. Além de viúvo, eu me tornara corno!

Caminhando entre as linhas e as palavras de Dalila, chorando feito menino, descobri que além de namorar, ela era comunista, subversiva, vingativa, triste e infeliz. Quase que em todas as páginas do seu diário, ela se descreve chorando, sozinha, e dizia que seu único desejo era a morte. Dalila queria morrer.


Em nenhum momento a pequena, agora comunista, escreveu sobre mim.

O que eu era para ela? A morte?

Dalila foi realmente uma brilhante atriz. Descobri que a ingênua sabia fazer bombas, gostava de Garcia Lorca, filosofava e não era uma burguesinha fútil e fria como pensei. Mas também não era forte como aparentava, nem era viva e feliz; sua inocência não passava de tristeza enrustida

(Interpretastes muito bem teu papel, Dalila! E mesmo não me dedicando uma letra sequer do teu diário, sei que me pedias perdão - não pela traição, mas por me ter sido tão alheia, por ter me enganado fingindo-se. Eu sei, querida, que querias buscar-te a ti própria e apenas te encontraste na morte. Querias morrer honrada, então, agora, dedico minhas palavras de morte a ti, escrevendo esta confissão absurda).


Dalila, minha dramaturga, me enganou e seu destino foi cumprido. Em toda sua existência teatral, a pequena fingiu-se e encerrou sua tragédia sendo fuzilada pelos franquistas em 1942. Dalila morreu da mesma forma que morreu seu poeta predileto. Até nisto ela era perfeita: morreu encenando! A máscara desceu-lhe da face e a morte elevou-se da vida. E eu que nunca fora amado sinto-me triste, cansado - triste, porém liberto e nos meus 37 anos ainda penso na pequena garota de 18, tão querida por todos, exceto por si própria.



Alberto Márquez, 18/05/1945





(narração escrita por mim, aos 17 anos, em uma aula de Redação – 23.08.03)

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Antigo...

Só encontro felicidade em sonhos.
É por isso que tenho olheiras enormes.
A minha cama é a minha nave espacial e especial.
Nela, eu percorro os caminhos do eterno retorno.

2004
Propuseram-me um pacto:
Habita em ti somente em ti e para todo o sempre em ti!
Aceitei.
Mas eu habitei em Mi, somente em Mi e para todo sempre em Mi.

E não há que chorar desencontros.

Hei de chover!

Relato de um dos meus dias...

O relógio anunciava a manhã.
Mais uma das várias manhãs que ela teria de enfrentar pelo resto de todas as manhãs.
Olhou para o tempo e deu-lhe de ombros, ainda com sono.
Ela deveria estar prestes. A manhã lhe esperava e os estudos também.
No entanto, as aulas de Direito Penal poderiam ter mais ritmo em seus sonhos incríveis.
Com a cabeça no travesseiro, estendeu o braço esquerdo e desligou o tempo. Não se sabe se o Direito Penal se fez presente em seus pensamentos; é provável que não. Os sonhos já não tinham importância. O objetivo era: não ter de acordar.

Infelizmente, o sol refletia em suas curvas, já suadas pelo calor matinal.
A obrigação gritava aos seus ouvidos.
Levantou-se, caminhou até o banheiro.
Antes de tirar de sua boca o gosto da noite, olhou para o espelho e viu o que não gostaria. O reflexo das olheiras era a prova de sua inútil tentativa. Cuspiu para fora de si todo o gosto da noite anterior e se fez bela para pagar a conta telefônica.

Tropeçou duas vezes. Suou como nunca.
O sol não a deixava esquecer que ainda era dia.
Enfrentou uma fila estranha.
As pessoas pareciam recém chegadas de planetas distantes do planeta em que ela pensava viver. O ar-condicionado trazia os arrepios.
Despediu-se da frieza do ambiente, saindo pela porta giratória. Quando pequena, adorava acompanhar a Dona Ilda até os bancos, somente para sentir-se girar.

Desceu os degraus de sua infância e retornou ao ponto de partida, assim como seu planeta fazia. Ao chegar no ponto, encontrou-se com uma simpática e loura senhora.
Ela estava lavando os novos degraus que a garota do banco teria de subir.

Cumprimentaram-se e três andares foram acrescidos à pequenina.

Essa foi a história de metade do meu dia. 11/04/05

Diálogos de um fantasma de meia-noite

Diálogo de msn, com um ex, transmutado em texto:

Ele dizia: "Buhhhhhhhhh!!! Era o barulho de um fanstama tentando preciptar-se na minha vida. Grande ilusão: ele nada tinha de assustador. Simplesmente não me amedrontava. Em verdade, ele nada tinha de "camarada", mas perdera todo o seu fascínio. Que importa passar por portas, se não se pode abrí-las p/ outros passarem consigo? Ah, eu não consigo mais ter medo!"

E o fantasma respondia: - O que penso é irrelevante, mas, você fez a interpretação errada. Fantasmas não são para assustar, são para vagar e para permanecer presentes mesmo que já estejam mortos. Por isso, atravessam barreiras e não desejam que outros abram as portas; preferem a solidão. Para quê portas abertas se ninguém pode os ver? São gelados como o frio curitibano para que sejam realmente sentidos, para contradizerem o calor.
Fantasmas não são fascinantes, são fascinados.

O "buhhhhh" não tem intenção de assustar, mas, intenção de dizer: "veja, estou aqui, presente, do seu lado, sem vc sequer imaginar. Não me veja, sinta apenas..."
E, como bom fantasma, sei do que falo.
O nosso objetivo fantasmagórico é passar pelas pessoas sem sermos notados. Queremos que apenas alguns poucos tenham esse privilégio de sentir toques gelados de presença de distância.

E ele acrescentava: "E o pobre fantasma continuava a envidar esforços no seu engodo de tentar me persuadir que sua reputação ainda era a mesma de outrora. Sim, ainda há pouco contara que atemorizou uma casa inteira, numa erma rua de Curitiba".

E o fantasma indagava: - Não! não confunda este fantasma com o fantasma nitzscheano. Fantasmas não tentam persuadir. Penso que reputação não é a palavra adequada... se não, serei obrigada a crer em um amigo moralista!
Fantasmas são feios, gélidos e imperceptíveis. Há algo mais tarziano que isso?

E ele dizia: "Você ainda ñ conhece esse fantasma."

E o fantasma retrucava: - Não... você que o desconhece e assim o quer. Pensa que o conhece e finge o contrário. Lembre-se, caro amigo: fantasmas não têm coração, mas os "assombrados" têm.
Isto tudo é somente um "Diálogo de Fantasma de meia noite", e quando você pensa que o matou, foi ele quem acabou contigo.
Fantasmas já estão mortos e não voltam para o mundo dos crentes, a não ser que desejem (por acaso) o seu eterno retorno. Eterno retorno...
E como o bom fantasma que sou, não espero compreensão, nem sua, nem de qualquer outra crença.

E o amigo inocente insistia: "Qual a minha importância para um fanstama? Por que raios ele quer passar e interferir em minha vida? Definitivamnete, havia algo de errado. Quanto mais luz (razão?!) entrava no meu quarto, menos fantasma existia. Ele ia se desfalecendo. Novamente um barulho. E, então, um mero lençol jogado no chão, com dois grandes furos na parte superior. Quem o usava??? Quem o usava??? Buhhhhhh. Agora sim eu sinto medo."

E o fantasma se cansava: - Quando você vier a padecer, compreenderá.
Morrerá acorrentado por suas convicções e não poderá sequer vagar.
Você quis desconhecê-lo e será assombrado por essa idéia até se tornar o próprio.


Continua...

15/07/2005

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Comércio


Eu fui trocada.


Trocaram-me por pés descalços a caminho do entardecer do amor,
Por pedaços de comida e sangue, cheiro do desconhecido, vaidade e armas.
Já fui trocada por palavras escritas, silentes, somadas, alheias
E me dei ao luxo de competir com o esquecimento e a discórdia.


Belas vestes já me substituíram, ao longo das minhas condições.
Medos e carícias, loucura, razão e todos os tipos de bebidas.
O vinho me roubou.
Os vícios do consentimento e as estátuas traíram-me.


A saudade retirou tudo o que, aos poucos, compusera-me.
Canções tomaram-me o lugar,
Olhares abaixaram-se, tristes, para além do meu eu.
Papéis voaram de mim, cortinas fecharam-se,
E remédios aliviaram a dor que eu causava.


Trocaram-me por camas quentes, joelhos sadios, mentes adestradas e pedras.
Da minha boca fez-se ausências, luares, mordidas, verdades, insetos.
As mentiras que contei foram tidas como sorrisos
e as lágrimas como câncer.

A doença caiu melhor que eu.
A madrugada era melhor companhia.
As rezas sabiam acalentar.
A bola era ideal.
Eu era a outra.


Eu já fui trocada por todos os tecidos, rumores, atrasos, comparsas, desertos, guitarras, chutes e automóveis.
As compras satisfazem mais.
As novelas distraem melhor.
Os pulsos são mais fáceis.



Trocaram-me até por um par de óculos!


E os meus cegos não percebem que ao confundir mistérios,
suas trocas -
mesquinhas, capitalistas -
refazem a amante religiosa em mim
ajoelhar-se para a gratidão do afastamento.


O inferno não são os outros.

O purgatório são os outros...
essa eterna espera posterior à troca e anterior ao adeus.

(Foto do Manto de Napoleão Bonaparte, tirada por mim, no Museu do Rissorgimento, em Milão.)

sábado, 3 de novembro de 2007

Com as mãos entrelaçadas, como se estivesse clamando, pedindo,
Com o queixo em riste e olhar cabisbaixo,
Percorro os minutos, expulso os segundos,
E deixo o tempo se esvair, levando as tempestades da minha alma.
Elas são frias e fazem doer as costas e o peito.

A chuva parou e o meu céu está quase quieto.
O cheiro de gotas pelo ar assombra minha noite,
enquanto ainda ouço o barulho do inacabado.
Despedaço minhas pálpebras ao olhar para o monitor brilhante
que insiste em carregar minhas mãos para essas letras vadias,
navalhas, policiais, estúpidas.

A respiração do cão está ofegante e ele dorme ao meu lado,
como se velasse meu sono ou me vigiasse, prestes a acordar para me revelar seus sentidos. O vento que sopra é áspero, cortante e, logo, fechei a janela. Mas o calor não me deixar ir. Quero dormir e meu corpo não permite.

Ligo o condicionador de ar e penso em todos os ares, todas as reais existências - pleonasmando - que são condicionadas.

O tempo é a minha condição.

Às vezes me pergunto quantas condições tenho imposto à mim mesma, ao longo da minha maior condição. Nunca fui boa em matemática; há diversos símbolos que desprezo. Mas sempre gostei de procurar respostas, sempre me senti atraída pela dúvida. E essa resposta eu só terei quando cessarem todas as condições.

Isso me lembra Fernando Pessoa: "quero ser eu, sem condições".

Mas a minha vida anda como meu intestino: só funciona de vez em quando.

Pedaços de cabelo caem no teclado.
Amanhece e eu desligo o ar.
Durmo com o cão, com a dúvida e tenho sonhos atemporais.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Propriedade


Paguem suas contas em dia
Livrem-se do cartão da agonia
O melhor da vida é o consumismo e a cria


O prazer do cheque e do ter
A moeda que se fez perder
É o vazio que te torna ser


É como se o possuir da pedra brilhante
Cegasse a figura infante
Que éramos ao nos conhecer


É como se a nota valesse mais que a mente
É como se entortasse a gente
Num mundo que te faz crer


Que a melhor solução é usar
Aquilo que te faz aparentar
O que pensam que é você


Ser ou não ter?



Mais uma besteirinha da infância - 15/02/2002

sexta-feira, 28 de setembro de 2007


Dentro de blocos de pedra
Movimenta-se um mundo silente
Enterram conversas e medos
Destroem saltos e quedas
Distribuem letras e segredos
Em garrafas de um licor ausente


O líquido de dor transparente
Acalenta o peito que grita
O inaudito choro noturno
A cidade embriagada se agita
No ápice que tudo limita
A fala de um querer ardente
O auge de um amor soturno.



Besteirinhas da infância.








Tenho medo de que a inconsolável agulha do tempo encerre minhas histórias
sem que eu as contemple e termine e de que a ausência se torne uma algema, ao lado da lembrança projétil.

Temo a idéia de que a miséria do conforto recaia sobre as minhas escolhas e de que o hábito sente em meu colo.

E por hoje
Não quero mais me expor.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Pequenina





Às vezes sinto o cheiro do cloro da piscina, quando de domingo à tarde, eu ficava na beiradinha, esperando pelo almoço.
O sol nunca me atraiu;

Na praia, eu sempre fugia dele.

O calor me deixa irritada e minha pele, frágil, não agüenta a energia. Também nunca suportei a água. Não gostava de quando via meus dedos enrugados, não gostava de me sentir peixe, nem de sentir frio.
Eu gostava da piscina, não por ela aliviar meu calor, mas por tudo que ela me representava numa tarde quente de domingo.



Nada de missas.



Domingo era o dia da Mpb, do choppinho, da bóia de braço, dos saltimbancos, de andar de bicicleta na pracinha, tomar picolé na padaria, sentir cheiro de caipirinha, pensar no churrasco, brigar com o irmão e ver os avós.


E era em volta das piscinas da minha vida que tudo isso acontecia.

Em casa, no sítio, no clube de campo, na praia, era sempre ao redor da água que eu passava os melhores momentos.


Logo de manhã, eles liam os jornais e eu já me preparava com a toalha. Depois, mamãe ia para a cozinha preparar aperitivos e o almoço. Ele ia para a piscina, beber caipirinha e tomar sol. Às vezes me obrigava ao exercício - hoje, eu detesto polichinelo. O melhor exercício era com as bóias... como eu adorava minha bóia de estrelinha!! Hoje, eu até penso que ela era americana demais: uma estrela branca, cheia estrelinhas menores pintadas de vermelho e azul. Mas era tão bom montar nela!! Meu irmão tinha um bote, cheio de indiozinhos... mas ele era laranja, eu nunca gostei de laranja.



Eu gostava dessa bóia de estrelinha porque ela não apertava meu braço... eu ficava dentro dela e não sentia medo de afundar.


Hoje, eu não tenho nenhuma bóia ou estrela que me faça sentir segura em não afundar.


Enquanto eu rodopiava na piscina, na sala tocava Chico, Vinícius, Elis e todos os outros grandes músicos que aprendi a cortejar. Eu tinha a fita dos saltimbancos e quando ouvia: "au au au, ia ió, miau miau miau, có có ró có" já saía pulando pela casa! "Nós gatos já nascemos pobresss, porém, já nascemoss livress"... quantas saudades!!


Hoje, a fita deve estar perdida em algum fundo de gaveta, empilhada, esquecida... inútil.


Depois do almoço e da sesta deles, um mundo de brincadeiras me esperava. Eu gostava muito de brincar de profissões: vendia roupas, era farmacêutica, caixa de supermercado, garçonete. Garçonete era a minha preferida... se pudesse, ficaria servindo eles o tempo todo.


Hoje, não admito servir a mim mesma.


Geralmente, a gente ia para a pracinha, ali perto de casa mesmo. Andava com a minha bicicleta azul, com rodinhas brancas atrás; eu ainda tinha medo de cair.

O medo durou pouco e logo eu já andava sobre duas rodas. Hoje, tenho medo de cair.


No meio de todos esses sorrisos, havia as brigas com meu irmão, que deixavam tudo mais infante e colorido. Havia os "Comandos em ação", as cabaninhas, o trenó feito de colchão para escorregar pelas escadas e, é claro, os sorvetes. O besta era tão tímido que, na praia, eu, menorzinha de tudo, é que tinha de pedir os picolés para o sorveteiro ou ligar para o disk-lanches.


Eu gostava muito da sacada e da rede. Ficar olhando a lua e as estrelas pela luneta, na sacada, à noite, e depois deitar na rede, não tem preço. Quando transformaram a sacada em escritório, eu tive vontade de chorar... mas era só uma sacada. Quando eu cresci e não cabia mais na bóia, eu tive vontade de chorar, mas era só uma bóia. Quando tudo acabou, eu tive vontade de chorar... mas não pude, não tinha mais idade para chorar. E, hoje, também não me permitem chorar.

Depois de tudo isso, às vezes tinha o sítio ou a casa da vovó nésia.


Eu confesso que eu gostava mais da casa materna.


Na casa do vovô Aires, tinha bala de todos os tipos, tinha música clássica (apesar da vovó assistir ao programa do Sílvio Santos) e um quintal enorrrmeee, cheio de árvores, frutas e mistérios.
E tinha a URBA também. Eu e ele vivíamos pulando o muro e inventando facetas como Indiana Jones. Também tinha o Mercedez, que eu adoravaaa fingir que dirigia e a mecânica do Tio, que eu achava meio sombria.

Mas a casa da vovó nésia era diferente.

Eu consigo me lembrar, depois de dez anos ou mais, do cheiro do sofá, do tecido da cortina, do ladrilho gelado, da mesa de pedra no centro da sala, da roupa do vovô quando eu abraçava ele, da cadeira de estofado colorido da cozinha, do gosto do arroz dela, da água do filtro, do cheiro de arruda quando ela me benzia, do brinco que ela usava, da pele flácida nos braços e no pescoço, do regadorzinho vermelho, do cheiro de remédio no quarto do vovô, da edícula que vivia trancada e de quando eu fantasiava existir monstros ali. Eu poderia descrever a casa, eles, a comida e os momentos com todos os detalhes possíveis. Hoje, tudo isso ainda mora em mim, vive. E eu não pretendo esquecer.


Quando eu chegava, tinha um portãozinho baixo, azul-claro, e a gente logo ia entrando. Já de cara, encontrava a escada - que eu adorava escorregar pelo corrimão. Antes de subir, do lado esquerdo, tinha uma mini piscininha, um laguinho que sempre ficava vazio e eu nunca entendi o porquê. Mas sempre havia uma piscina ao redor!


A porta tinha umas grades entrelaçadas, era branca e era de vidro também. Tinha uma parte de vidro que abria entre as grades. O piso era de madeira e fazia barulho se alguém usasse salto alto.

Os sofás eram marrons, algo parecido com couro e as almofadas eram um pouco ásperas, com desenhos meio alaranjados e amarelados. Tinha cheiro de coisa antiga.


O telefone fazia um barulho engraçado e era cinza, daqueles de ter que girar. A mesinha do centro, era branca e de pedra, geladaaa... eu sempre fazia a lição de casa ali. Tinha uma T.v. e, em cima dela, alguns porta-retratos: meu priminho Vinícius e meu primo Fábio, com meu irmão no colo, se não me falha a memória. Eu gostava da T.v., mas não por ela. Meu avô, sempre quando eu ia visitá-lo, deixava uma balinha ou um chiclé escondidos atrás do porta-retrato, em cima da T.v. Ele me chamava de "Chica" e pedia para eu procurar um presentinho... e eu sempre encontrava. Como eu adoro bala chita de abacaxi!!


O banheiro era todo branco e tinha almofadinha na privada! Eu adorava aquilo. Sempre media a qualidade dos restaurantes pelo banheiro... e quando tinha almofadinha... era diferente!


O gostoso da cozinha era o arroz. Quantas e quantas vezes eu chegava e ia direto para a geladeira comer arroz gelado da vovó nésia? Tinha também uma dispensa... que eu não gostava muito, era apertada. E logo em seguida tinha o escritório do vovô.


Ele vivia consertando e construindo coisas. Tinha livros e papéis e gavetas e armários. Mas o mais legal de tudo era o palhacinho que ele construiu para mim e para o meu irmão. Era uma caixinha de madeira, com cara de palhaço e, bastava você apertar um botão, que o nariz do palhaço se acendia. Ali também era o local da vovó brincar de saci no escuro. Eu morria de medo quando ela colocava o fósforo dentro da boca, entre os dentes e imitava o saci.


Depois tinha a área de serviço e o quintal. Na área havia uma mesa de madeira, velha e meio úmida. Nessa mesa ela me sentava e, com um galhinho de arruda, me benzia. Eu não entendia bulhufas do que ela dizia baixinho e nem sabia por que ela fechava os olhos. No fundo, eu achava engraçado, mas gostava do cheirinho. Lembro da textura, das rachaduras da mesa... eu me sentia bem.

Logo depois da benzedeira, tinha o quintal, cheio de frutas e coisas para se fazer e brincar. Meu avô tinha uma espécie de oficinazinha ali, uma pequena marcenaria. E eu tinha uma lousinha, um regador vermelho e um velotrol. Também tinha um corredor por ali, meio estranho, que ia dar na garagem... era onde ficavam os botijões de gás. Era legal para brincar de esconde-esconde.

Hoje, a casa não existe mais, nem as pessoas que nela viviam.


Hoje, eu nem moro mais por lá.

Mas só eu sei como é maravilhoso não esquecer isso.

Só eu sei qual o gosto do arroz, o cheiro do sofá, a maciez da cortina. E isso, ninguém pode me tirar.

Não me permitem chorar, não me permitem cair, afundar. Não me permitem ser eu mesma.
Mas enquanto eu tiver memória, olfato, audição, visão e tato para viver, enquanto eu puder guardar tudo o que vivi dentro de mim, eu me permitirei.

Hoje, só hoje, eu quero ser Milena.
Eu sou o equilíbrio.

Ora, imagino que todos que me interpretam, julgariam ridícula a frase acima.
Permitam-me a minha defesa.
Desde a década de 80 - quando vim ao mundo para confundir - que posso ser considerada aquilo que é definido por todos como medíocre.
Sim... não o termo pejorativo, modificado, popular.
O termo médio, mediano, o meio-termo.

Estou sempre na situação do meio.
Entendam: isso não significa que não tome atitudes, posições, que não tenha idéias; não é isso.
Tampouco fico "em cima do muro". Geralmente sou extremista e até um pouco radical.
O que ocorre é algo inerente, que nem sequer consigo explicar. É a idéia que os outros têm de mim, que me faz ter essa duplicidade, ser essa dicotomia. Na verdade, é tudo muito claro.
Vejamos se consigo esclarecer:

Sempre fui considerada a "mais-ou-menos". Nunca fui a melhor amiga, a mais bonita, a mais inteligente. Mas também nunca fui a mais detestável, horrorosa e burra.
Nunca fui sentimentalóide, mas sabia ser romântica. Não era magra, nem gorda.
Não gostava da direita, mas não podia ser esquerda. Era destra, mas sabia ser canhota.
Era amada por uns e odiada por outros. Estava sempre no meio, mas nunca ao centro.
Sempre fui a megera sensível, a doente sadia, a culpada desculpável, a egoísta solidária.

A única definição em minha vida, aos olhos alheios, é quanto à religiosidade. Nunca adotei a posição de crédula, nem quando pequena. Na infância, eu nem sequer pensava sobre isso.
Mas hoje, para a grande maioria ingrata, eu queimarei no fogo do inferno.

Eu vim para confundir!

Esse maniqueísmo moralista dos seres humanos, quando atrelado aos juízos de valor, causa-me verdadeira repugnância.
Mas se eu sou o céu e o inferno, o fogo e a água, o tudo e o nada, nessa versão meio raul-seixana da conversa, só posso chegar a conclusão de que eu sou o equilíbrio, o yan-yang, a perfeição, não?

Alguns dos meus hermenêutas, conseguem ser a metade, o meio? Alguém aí consegue ser tão medíocre quanto eu?

Eu, às vezes, sorrio quando escrevo!

Atemporal

O hálito do tempo
Embriaga-me o espírito.

Os dias que me somam hoje
já findaram.

As noites que correm de mim
clarearam.

Os amigos vão
As folhas caem
As idéias morrem
Os amores partem
Os navios naufragam
As flores murcham
O medo cessa
Os corpos apodrecem

De fato, novos amigos surgirão,
novas folhas brotarão,
idéias renascerão.
Amores hão de fluir,
navios a velejar,
flores a crescer.
Novos medos eu terei
e a morte sempre existirá.
Mas aqueles que partiram,
que caíram,
que se foram,
que cessaram,
esses, não voltam mais.

E se voltassem, eu é que teria de partir.
É por isso que tenho ótima memória.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Mania




Escorrendo,
escorrendo pelo dia
A áspera flor que corta
A doce dor da poesia
A gota de melancolia.


Escorrendo,
escorrendo pela porta
nas frestas da palavra morta
Aquilo que ainda havia.


domingo, 23 de setembro de 2007

Poema tardio


Na triste casa vazia
Em que eu passava o resto do dia
Consumia, suava, perdia
A vida que ali se esvaía

Em doces pratos de absurdo
Comia as víceras restantes
Como se me faltassem dentes
Em tons de cinzas de gentes
Em inquietos "nãos" protestantes

Sempre inconformada
Sempre a não aceitar
Aquilo que pregam na praça
Aquilo que teimam doar

Doação de casto gentil
A gente desconfia na hora
Eu vivo é no Brasil
Mas não tardo e vou embora

Cansei dos palanques e vozes
Das antas a titubear
Dos "ais" vorazes e ferozes
Daqueles que pensam enganar

Deixo a corja pensar que sou
Que o erro existe e que os juízos não são humanos
Teimo em dizer que vou
Lavo o doce e penduro o pano

Fumaça de cigarro, odores
Aroma do meu pesar, de amores
Saudades da infância tardia
Que se me vou aos açôres
Não é só pelas cores
Mas pela pátria alegria.

Prendam a vida e o tédio
Que eis o melhor remédio
para os que já vão partindo

Soltem o louco, que já vou-me "indo"
Que se volto é pelo beijo de assédio
Dos homens que se me vão rindo.
Não digo flores, imagens ou sorrisos.
Breves palavras com sabor de gente dão apenas a idéia de sonoridade perfeita: um quadro na sala, ao som da nona sinfonia.
Mas não é preciso música para dançar nem tampouco idéias para escrever.
O que me incita é o que me faz cravar os dentes.
Cada roer de unha, cada estímulo cerebral, cada nova letra, dita, ouvida, lida, é um filho nascendo do inacabado.
Por isso, não é bastante percorrer linhas, vidas, céus e inconscientes; é preciso o fel dos deuses. Transbordar cores, absorver toques, inventar realidades, suscitar o novo, conhecer verdades inatingíveis, casar-se com o inaudito e aliar-se ao impronunciável: não é o bastante.
Antes de tudo, é preciso ter vida.
De que adianta tua existenciazinha parasita e ignóbil, em um mundo de ferrões e cicatrizes?
Não basta ser grande ou inteiro; antes, é preciso sê-lo.
Tens o medo dos infiéis, a angústia das crianças e as mãos nos bolsos; que queres, pois? Adorações em altares?
Não. Não ateio fogo em padecimento.
Não adestro pequenos cães ou cegos.
Não me é possível ensinar o que é meu.
Da observação do mundo, do alto da minha janela, vejo a que distância estou daquilo que não consigo enxergar.
A claridade me ofusca até o mais remoto pensamento.
Mas tendo minha mão como inimiga mortal, continuarei a tatear, cegamente, tudo que há de me pertencer.
Sem bolsos ou cartas na manga, longe dos requintes do que chamam, hoje, de literatura, beberei os versos podres a que venho me acostumando, entre horas de insônia e gostos noturnos, para preparar o riso tardio de qualquer dia, entre a cama e a estrada.
Sem lentes de aumento, cremando alguns conceitos restantes, em silêncio, aguardo o próximo instante de partida, ansiosa pela fumaça cinza que ameaça a janela.

Morte


Sobre a paralisia de uma cadeira azul, imóveis queixo e dor, dispenso o cigarro e apago minhas dúvidas.
Nesta noite de sábado nu, com os pés descalços para a frieza de um chão ausente que um dia há de ter-me, penso na impiedosa sombra da perda: descobri que a morte é uma ave de rapina.
Ela sobrevoa nossas vidas, com visão aguçada e fome voraz. Escolhe a presa suculenta e, quando menos esperamos, ela crava suas garras afiadas em nossos peitos jovens e nos faz sufocar. A morte é a águia do mito de Prometeu, que pouco a pouco, arranca aos pedaços nossos restos de vida e nos condena à prisão da inexistência. Essa é a pena, essa é a punição do tempo; substantivo que insistimos em adequar às nossas classificações mesquinhas e humanas, quando não nos resta sequer um retorno. Não, não há saída. A eternidade é uma pequena rua vazia e sem saída.
É só então que um corredor de memórias invade a cabeça dolorida e cansada e a gente pensa na tarde poente que é a infância.
Do transbordar dos efeitos do tempo, nasce, diante de mim, aquela que é meu motivo.
E penso nas noites que passei ao seu lado, velando seu sono e pedindo, humildemente, um abraço para me sentir segura.
Sempre tive medo do amor.
É com um carinho de criança chorosa que me lembro da cama quente e dos beijinhos em liquidação que eu distribuía quando ela voltava exausta da rotina de ensinar a viver; das conversas adultas e tão amigas, que me mostraram o verdadeiro valor e significado da realidade cruel que ela insistia em amenizar. É que viver dói.
Das cestas de café da manhã, dos inúmeros presentes que ganhei em meio a tanta dificuldade. E meu sorriso era meu único agradecimento. Lembro das encenações, das brigas com meu irmão, que a deixava momentaneamente brava. Do assassinato da minha bola, que no final, achei cômico. Das viagens maravilhosas, das praias, dos sorvetes que comprava, de cada lugar que visitamos, da Europa aos meus pés. Ela sempre me permitiu.
É com um rosto já molhado que me lembro do dia em que ofereci minha nota de um dólar para ajudar nas despesas da casa, do jogo de cartas pela madrugada, da permissão para namorar, das opiniões sobre minhas roupas, dos nossos gostos opostos, do medo de mariposas, da risada de bruxa, dos guardas noturnos que assombravam minhas noites, das estradas que percorremos, dos desabafos e das festinhas de aniversário.
Mas os anos passam.
E é então que o tempo me enforca e leva de mim todos esses sublimes instantes de sorrir. O tempo, aliado das aves, é maior dos traidores. Ele apaga das vistas tudo o que se pode chamar de amor, nos rouba o existir, nos induz ao hábito e ao esquecimento.
Tempo é perda.
Um dia, uma ave de rapina, disfarçada de tempo, a levará de mim e me deixará sozinha, com as entranhas expostas ao tempo e à dor; sozinha comigo.
Um dia, eu terei de me enfrentar, terei de lutar contra mim mesma até que a ave também venha me buscar para me levar à rua da eternidade.
Eu só queria que a minha ave chegasse primeiro e me poupasse de ter pensamentos como este.

Mon dieu des les yeux gris





No dia em que tu partiste - com teus pés descalços, teus pés de aço, os mesmos que rompiam os brinquedos da minha infância - minha fé adoeceu.

Na tarde nublada em que tu partiste e me deixaste só, eu compreendi que o espaço era demasiado curto e que o teu tempo fora deveras pequeno para as minhas descobertas de chocolate-surpresa e para as minhas doces aprendizagens de castelos de areia.

Tu, que com teus olhos cinzas me fizeste enxergar a realidade sutil das coisas enfermas, o mesmo que tantas vezes me salvou dos oceanos de dor e das ondas que me afogavam agonias.

Tu, que tanto tinhas a receber e nada a oferecer, que foi o passivo mais amado, negaste a mim o que me era de direito.

Eis a cruel justiça divina dos homens!

Tu, que tanto quis e pouco fez
Tu, que tão apegado às causas nobres não fora capaz sequer de notar um filho...

Por que é que me abandonaste, meu pai?
Por que é que me deixaste no silêncio e na escuridão da cegueira do inatingível, sem ao menos me dar o direito do adeus?
Por que é me negaste o teu olhar nublado, de cinzas esverdeadas, tua mão protetora a me ensinar os primeiros passos e a tua insaciável avidez pela igualdade?
Por que não me permitiste a igualdade, meu pai?
Que deus é esse que não ama seus filhos?

(Eu sou o rebanho do mundo)

E eu, tão menina, já tão minha, tive de aprender a viver com a tua única dádiva: a ausência.

Aonde é que o Senhor esteve quando precisei, pai?
Por que amparaste a todos com teus largos braços e colo divino, repartindo o pão, enquanto me fazias prisioneira da culpa?


Não. O senhor não é mais meu deus.
Fiz promessas ao nada e o que foi que me restou?
Não há ensinamento.
Seus mandamentos me fazem rir, pai.
Dizem por aí que o Senhor está morto, mas só eu sei que você nunca existiu, que a única presença é a da ausência e que não há mais sentido para tua tardia piedade.
Somos sozinhos.

Hoje, tudo não passa de psicologia barata e meus gritos, abafados pela rouquidão da maioridade, esmagam minha fé com os falsos pisões de outrora.
Hoje, sei de tua inexistência, meu pai.
Sei daquele que não está entre nós.
Sinto por não poder calar sobre aquilo que me faz ter o ilusório sangue divino.

Hoje, te amaldiçôo, meu pai...
Eu te maldigo!
Fui adotada por um novo Senhor, um deus que me ensinou a ser Milena e que, acima de tudo, me ensinou a ser Tarzia.
E nesse reinado espiritual eterno, não há lugar para charlatões.

Hoje, eu não te acredito mais, pai.

Eu não te acredito!