quinta-feira, 29 de abril de 2010

Continuação - Empédocles de Agrigento

2. A Cosmologia Empedocleana: a physis do ponto de vista plural
2.1. De certo modo, a filosofia da natureza de Empédocles poderia ser considerada uma espécie de resumo da cosmologia dos jônios que o precederam. Em “Sobre a Natureza” - tema comum entre os pré-socráticos - Empédocles parece nos apresentar uma visão do processo cosmogônico que constitui um desenvolvimento e uma modificação da linha de investigação iniciada pelos milesianos. Seu principal interesse é o mesmo de seus antecessores: investigar, de maneira ampla e plausível, a natureza que o cerca. Entretanto, Empédocles parece se opor ao ponto de vista dos eleatas, em relação ao uso exclusivo de uma razão que afirma a unidade do ser e que nega a legitimidade racional da multiplicidade e do movimento. Tal era a postura de Parmênides. Por sua vez, Empédocles altera essa concepção, como veremos em seguida.

2.2. Segundo Marcio H. Pereira, buscamos demonstrar que Empédocles teria herdado aspectos míticos do aedo arcaico, acrescentando a eles aspectos místicos da religião órfico-pitagórica, e que sua filosofia estaria em estreita relação com ambos os aspectos sagrados. Num primeiro momento observamos que Empédocles, influenciado pela noção parmenidiana de que o Universo repousa sobre o amor e a unidade do todo, a modificou e acrescentou a idéia de multiplicidade e separação, além da imagem teórica da Esfera. O fragmento 27 trata exatamente deste contexto em que Empédocles nos revela a harmonia do Spherus, numa suposta solidão circular. O aspecto concernente à Esfera será tratado com maior profundidade num momento posterior.
Não obstante, haveria um sistema dialético no trajeto de antítese à esta harmonia inicial descrita com a sublevação da discórdia. Os fragmentos 30 e 31 mostram que todos os membros foram agitados, até mesmo os divinos. E por fim, o fragmento 35 evidencia os períodos intermediários, de onde podemos perceber a circularidade dos eventos éros e neikós em relação a constatação das coisas no tempo. (Os fragmentos serão dispostos nos próximos posts).

2.3. A conciliação entre razão e sentidos conduz à substituição do monismo corporalista pelo pluralismo. Então, finalmente, o universo poderia ser compreendido como resultado de quatro raízes: a água, o ar, a terra, o fogo. Todos os elementos seriam governados pela isonomia; nenhuma raíz seria mais importante ou mais primitiva em relação às outras, pois todas são eternas e imutáveis:
“Não há em absoluto nascimento (physis) para todas coisas mortais, nem fim, na detestável morte; mas somente mistura e distinção das coisas misturadas, é isso que os homens chamam physis” .

3. A formação e as influências das doutrinas órfico-pitagórica e dos filósofos eleatas na constituição do pensamento de Empédocles de Agrigento
3.1. A religião exerceu uma profunda influência na gênese da filosofia grega, e, por conseqüência, na filosofia ocidental. Mas quando falamos em religião helênica, faz-se necessário distinguir a religião pública (que teve seu modelo na representação dos deuses e do culto que foi legado por Homero, e adotada pela maioria da população pela sua simplicidade explicativa dos fenômenos naturais e humanos, antropomorfizando-os) e a chamada religião dos mistérios.
Apesar de serem religiões com pontos em comum, há importantes diferenças entre estas duas formas de religiosidade (como, por exemplo, a concepção de homem, do sentido da vida e o destino último da alma humana). Neste aspecto encontra-se nosso maior interesse, pois a religião derivada de Homero – o denominado dionisismo – nos traz um “Deus que toma a alma” e em cuja doutrina não há noção de imortalidade.
Já no Orfismo, que é de origem asiática, temos a noção de imortalidade e de metempsicose, que de Pitágoras em diante vamos percebendo como uma praxe entre as supostas teorias da alma. Assim sendo, ambas as formas de religiosidade são fundamentais para a gênese da filosofia grega, mas a segunda forma se destaca muito mais no presente momento que a primeira.
Neste sentido pretendemos realizar uma breve abordagem sobre o orfismo, as influências egípicias e o pitagorismo no pensamento de Empédocles. Vejamos.

3.2. Afirma Autiveres Maciel que Empédocles tinha de si a seguinte idéia: ele era “um homen que fazia parte daqueles que foram condenados a viajar na errância durante vários anos, atravessando eras, períodos de vida, reencarnações sucessivas, a ponto de adquirir um certo saber de todo os ciclos de seres” . O conteúdo e estilo de sua poesia revela um homem de imaginação, versatilidade e eloqüência, com um toque de teatralidade. A junção, um pequeno aglomerado de elementos comuns que antecederam a vida de Empédocles no cenário pré-socrático, o constitui. Talvez alguns dos traços do Empédocles histórico tenha realmente sido capturado no retrato colorido da tradição biográfica. As lendas, as biografias apócrifas, não conquistaram apenas os estudiosos do tema, mas têm continuado a despertar a curiosidade e imaginação atuais: Empédocles foi o herói do drama romântico dos poemas de Holderlin e Matthew Arnold, e de outras obras literárias. Teria ele se lançado ao Etna para comprovar sua origem divina? Seria xamã? Médico? Político? Rei?
Não sabemos. O que sabemos é o que nos restou.. alguns fragmentos e doxografias.
Leonel Franca afirma-nos que os poemas de Empédocles teriam apenas a intenção de conciliar a unidade e a imutabilidade do ser, ensinada, sobretudo pela escola eleática, com a pluralidade e o movimento local, evidentemente atestados pelo senso comum, momento em que, de fato, propõe a doutrina dos quatro elementos. Será?

3.3. Muitas tradições bibliográficas, nem todas possíveis do ponto de vista cronológico, fazem de Empédocles em discípulo de Pitágoras, de Xenófanes e de Parmênides. Parece-nos que ele imitara Parmênides ao escrever, em forma hexametral, o poema “Sobre a natureza”. Este poema, dedicado a seu amigo Pausânias, conforme encontramos no Fr. 1: “E, tu, Pausânias, filho do sábio Antiques, escuta-me”, continha cerca de 3.000 versos, dos quais chegaram até nós apenas uma quinta parte. Ele também escreveu um poema religioso, “Purificações”, do qual muito menos se preservou. É neste poema que encontraremos mais razões para estudar os indícios de uma noção de alma. Os estudiosos não chegaram a um consenso sobre a qual dos dois poemas devem ser agregados a maior parte das citações dispersas que sobreviveram – alguns, na verdade, julgam que os dois poemas sejam fragmentos pertencentes a uma única obra. Mas há controvérsias e tal questão neste exato momento não nos interessa tanto.

3.4. Peças adicionais desse quebra-cabeça textual foram recuperadas quando quarenta fragmentos de papiro foram identificados nos arquivos da Universidade de Estrasburgo em 1994 (“O Novo Empédocles”). Como poeta, Empédocles era mais fluente que Parmênides, além de mais versátil. Segundo Aristóteles, ele teria escrito um épico sobre a invasão da Grécia por Xerxes, e de acordo com outras tradições seria o autor de muitas tragédias. Assim como Pitágoras e os órficos, Empédocles defendia a transmigração das almas por meio de um longo ciclo de reencarnações, condicionado pelas conseqüências de alguma grave ofensa cometida (erro).

3.5. Quanto ao orfismo é de imensa relevância nossa inflexão a este aspecto, porquanto tal seita teria influenciado, juntamente com o pitagorismo, grande parte da filosofia posterior, até mesmo Platão, no que diz respeito, por exemplo, às posições relativas à alma humana, sua constituição, transição, etc.
O orfismo é um movimento religioso complexo onde se detectam influências dionisíacas, pitagóricas, egípcias, apolíneas e, obviamente, orientais. Teria sido fundado por Orfeu, um herói lendário da Grécia arcaica e patrono da música. É importante aqui salientar o caráter monoteísta do orfismo, que representa uma ruptura importante com os mitos olímpicos advindos dos rapsodos homéricos.
Contudo, o rompimento mais radical com o mito homérico se dá no plano escatológico, ou seja, na ciência dos fins últimos do homem, naquilo que deverá seguir à vida terrestre. A descida ao Hades simbolizava uma espécie de "vida após a morte".
Desse modo, podemos compreender como a concepção órfica da imortalidade advém de um crime primordial: a alma está enterrada no corpo como se fosse um túmulo (soma-sema, que significa corpo-túmulo). Como conseqüência desse sepultamento, a existência encarnada se assemelharia mais a uma morte, e o falecimento constituiria o começo de uma verdadeira vida. Esta verdadeira vida não é obtida automaticamente; a alma será julgada segundo as suas faltas e os seus méritos (concepção moral?).
Após um certo período, a alma reencarnará e desencarnará novamente.
Trata-se de uma concepção cíclica, eterna, que só pode ser resolvida por meio da Purificação (ritual).

3.6. A influência egípcia (julgamento de Osíris e reencarnação) é inquestionável no orfismo. Nessa via-crúcis, de transmigrações, até mesmo em corpo de animais (metempisocose), a alma vai se purificando. Nesses intervalos reincarnacionistas a alma chega a demorar uns 1000 anos no castigo do inferno, onde sofre um ciclo de pesadas penas. Quando completamente purificada, sai desse ciclo de gerações para reinar entre os heróis. O destino, obviamente, não será o mesmo para os iniciados órficos e os profanos. O mortal comum, profano, deverá percorrer dez vezes o ciclo antes de escapar. Um artefato importantíssimo no orfismo são as “lamelas órficas”. São pequenas lâminas ou placas de ouro, descobertas na Itália meridional e na Ilha de Creta, e em túmulos órficos. São todas marcadas com o sinal secreto Y, até hoje um mistério. Delgadas e elegantes, enroladas sobre si mesmas, eram depositadas em pequenas placas hexagonais. Estas, presas a correntes de ouro, eram colocadas no pescoço dos iniciados, como talismãs, à maneira de passaporte para a eternidade. Numa das lamelas encontradas, estão incrustados versos de aconselhamento à alma do morto para sua viagem em direção ao Hades. Em lá chegando, o morto deve escolher entre o caminho da direita e da esquerda. “À esquerda da morada do Hades, tu encontrarás o Lago da Memória (Lethes), e os guardiões estarão lá. Diga-lhes... eu sou o menino da Terra e do Céu estrelado, mas estou morrendo de sede. Dá-me rapidamente a água fresca que flue do Lago da Memória”.
Para a alma que deve retornar a terra no intuito de reencarnar, essa água do Lethes tem por função não esquecer sua existência terrestre, mas eclipsar a recordação do mundo pós-morte. O orfismo assim reverte a função da água do Esquecimento pela nova doutrina da transmigração. O esquecimento não simboliza mais a morte, mas o retorno à vida. A alma que teve a imprudência de beber na fonte do Lethes reencarnará e será novamente projetada no ciclo do devir. Para aquelas almas que não precisam mais reencarnar, é aconselhado evitar a água do Lago da Memória e passar ao caminho da direita. E está escrito numa das lamelas: “Venho de uma comunidade de puros, ó puro soberano dos Infernos”.
Ao que Perséfone replica: “Saúdo-te, toma o caminho da direita em direção aos prados sagrados e aos bosques de Perséfone”. A sede da alma, comum a tantas culturas, configura não apenas o refrigério, pelo longo caminhar da mesma em direção a outra vida, mas sobretudo simboliza a ressurreição, no sentido da passagem definitiva para um mundo melhor. Se, para os gregos "os mortos são aqueles que perderam a memória", o esquecimento para os órficos não mais configura a morte, mas o retorno à vida.

3.7. Quanto ao pitagorismo, no entanto, observamos que as crenças pitagóricas não envolviam apenas números. Como a seita possuía caráter religioso, havia crenças que explicavam a existência ou não-existência humana, estudadas por eles numa suposta Filosofia. Os pitagóricos, ao que tudo indica, pregavam o corpo humano como o “túmulo da alma”. Quando o corpo (prisão) morria, a alma se libertava e renascia. Diziam que para manter a alma imaculada e limpa durante seu confinamento, não se poderia comer favas (vagens), galos brancos e alguns tipos de peixes, e não se podia apanhar qualquer alimento que caísse no chão.

3.8. Era, sobretudo, necessário manter a alma limpa. Assim, eles difundiram a noção de metempsicose ou transmigração da alma, cujo preceito teria por base informar que uma mesma alma poderia animar diferentes corpos, não importando se eram de origem vegetal, animal ou mineral. Este ciclo de reencarnações da alma teria por objetivo purificá-la - caso houvesse alguma maldade nela - para que, no final do ciclo, a alma pudesse alcançar o paraíso ou a Ilha dos Bem-Aventurados. Escreveram uma escatologia pitagórica, que é um tratado sobre as ações finais do homem ou de sua alma. Diz o tratado que “a alma, após a morte do corpo, está sujeita a um julgamento divino. Aquelas que forem perversas serão castigadas nos mundos inferiores e aquelas que forem boas, ou não possuírem maldade, alcançarão a Ilha dos Bem-Aventurados” .


***Anotações de aula:

Dionisismo: Aqui não há consciência do duplo. O deus apossa-se do sujeito. Deus faz do sujeito o que bem entender. As Bacantes. Tragédia de Eurípides. A Grécia abre-se para os festivais dionisíacos. Nestes festivais as estátuas são – EIDOLON. E se trata de um eidolon (aspecto - forma). Não se tendo em texto – Dionísio é o fundamento de todas as possibilidades de duplos possíveis. Ele é tudo e não é nada. Ele maldoso e benfazejo. Há vários dionísios. Depois dos festivais – todos vão para a floresta e copulam. Aproximação com o bacanal romano. Na Grécia arcaica tratava-se de um culto sagrado.

Orfismo: No orfismo o duplo possui certa lembrança posterior. Ser vivente é recipiente. Há também o "enthéos" e há a hierarquia dos iniciados. Por isso há rituais de iniciação. Ligação entre orfismo e pitagorismo. Os valores são muito fortes. É o modo de viver bem o aqui. Mistérios - é ao pé do ouvido. Ninguém se sabe como vai ser a ascese daquela pessoa. Processo de aprovação, e ao mesmo tempo – beberagem. “Produshcinell” afirma que na lírica já há indícios de uma interioridade. Há um certo rigor para aprovação do iniciado. O duplo pode, no orfismo, visitar a divindade. Em Parmênides – diferentemente do Orfismo - é o original mesmo que visita os deuses através do poema famoso sobre o ser. Homens e deuses não se misturam. O homem tem que saber os seus limites. Sócrates. O limite impediria de visitar placas divinas. Em Platão tenho a dialética que não me faz deus, mas abre o acesso de, racionalmente, agir como um deus. Os Órficos não inventaram a idéia de transmigração das almas. Diferenciar – pitagorismo, orfismo e pitagorismo-orfico. “Tudo esta em tudo”: pitagorismo. A leitura mais próxima dos pitagóricos é Aristóteles. A alma seria um duplo sui generis, porque poderia viver sem corpo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Empédocles de Agrigento (495/435 A.C.)

1. A Vida de Empédocles e seus fragmentos em "supostos" dois poemas: "Sobre a Natureza" e "Purificações"

[...] Os homens vêem apenas uma pequena parte de uma vida que não é vida, condenados a prematura morte, são roubados e diluem-se como fumaça (frag. 2) .

1.1. Empédocles surge ao cenário greco-ocidental, permeado pelo interesse cosmológico dos pré-socráticos, de um modo um tanto quanto enigmático. Seus biógrafos e estudiosos são sintomáticos e unânimes ao identificarem esta esfera sombria da sua personalidade e a dificuldade de se estudar seu pensamento, sobretudo pela pelas particularidades morfológico-semânticas de seu Léxico. Dentre os vários autores, citamos Gerd Bornhein e Barnes, pois eles atestam exatamente o caráter lendário da vida de Empédocles, como também de Anaxágoras, como néo-jônios.

1.2. Muitas situações relativas a Empédocles ilustram historias inusitadas, mas é, sobretudo, em narrativas que evocam certo tom de “xamanismo” sobre sua pessoa que repousam os mais apofáticos e típicos comentários. Em certo contexto, por exemplo, ao libertar uma cidade da malária foi aclamado “deus” como nos afirma o próprio Bornhein . Entre outros tantos exemplos que iremos calcar ao expor nossa argumentação, Empédocles surgiu ao cenário cosmológico com uma novidade – seu pensamento foi cadenciado pela argumentação arque típica na physis, mas de maneira pluralista. Deste modo, obviamente concordo com G. Reale, que o denomina como “um físico pluralista” , porque de certa forma, segue a todos da formação pré-socrática, bem como os de formação eleática , pois se une na procura da arché na physis, não de maneira moonista, mas, como já dissemos, sua doutrina é complementarista, sem, contudo afirmar uma gênese antecedente entre as raízes elencadas por ele. De certo modo, sendo pluralista e, ao mesmo tempo, reiterando a unidade parmenidiana com o devir heracletiano, Empédocles encontrou mais de um elemento constitutivo em todas as coisas no cosmo.

1.3. Empédocles nasceu entre os anos em 495/90 a.C, na cidade de Agrigento, cidade de origem Dórica, na região da Sicília; e teria morrido entre os anos de 430/445 a.C. Era proveniente de família aristocrática e influente; o pai era o político e aristocrata Méton, e consequentemente, tanto ele como sua família participavam das atividades políticas da pólis. Era um homem da política - “da fala publica”, ou, como nos afirma “Aristoteles [...] que o considerava o pai da retórica” admirado pela arte de falar.

1.4. Enfim, Empédocles era admirado pela sua postura de falar em público. E assim sendo, ao acompanhar o artigo "Empedocles'Oral Style", de Jackson Hershbell, informo que temos respaldos para crer que Empédocles foi um dos maiores oradores de seu tempo, e que, de fato, seus poemas eram recitativos - funcionariam apenas como "anotações", uma vez que tudo era proclamado para a audiência, o público.
Em razão de sua extraordinária habilidade técnica e oratória, sua cidade natal passou admirá-lo e a considerá-lo um homem de talentos sobrenaturais, divinos. Também encontrei relatos de que ele teria curado certa praga da cidade de Atenas, usando apenas o fogo. Ele teria feito o mesmo em sua terra natal com o método de desinfecção pelo fumo: “αψεως πυρων δι ‘καιυποκαπνισμων”. Viajou por muitos lugares e faleceu, mais ou menos aos sessenta anos, segundo a doxografia, em local ignorado (Peloponeso ou Túrios).
Ademais, nada se conhece de concreto a respeito de sua vida como afirma, especialmente, Jean Bollack – um dos principais referenciais. Tendo vivido em Agrigento, na Sicília, deve ter morrido provavelmente em 435 a. C e, além disso, era considerado venturoso tanto como médico, poeta, dramaturgo, político e investigador da natureza, filósofo e "deus".

1.5. Suas obras contemplariam, supostamente, dois poemas, dos quais resta-nos alguns fragmentos que foram conservados e transmitidos ao longo dos tempos. Ele observou que plantas e animais, o mundo físico, o cosmo, incluindo o homem, são criados a partir de quatro elementos básicos, que ele chamou “ριζ? Ματα” (raízes ou elementos). Este é, pois, o elo que o liga à todo o interesse pré-socrático e ao mesmo tempo é o que o distancia, pois sua finalidade é pluralista. Quando combinados em maneiras diferentes, esses elementos conseguem produzir todas as variedades de espécies vegetais e animais na Terra. A “mistura” destes quatro elementos descreve cada órgão ou parte do nosso corpo, cada fragmento do Universo. Segundo Marcelo Perine, o “múltiplo” é a primeira constatação que temos, e, neste sentido, Pitágoras, Heráclito e Empédocles estavam corretos, pois não partem de uma unidade primordial, mas da constatação real da multiplicidade.

1.6. Em geral, sua introspecção, vista através de suas observações, revelam uma biomédica admirável, de modo que poderíamos chamá-lo de "precursor da medicina moderna". Empédocles foi o autor de, supostamente, dois poemas em hexâmetros, um físico-cosmológico tradicionalmente intitulado “Sobre a Natureza” (estimado ter sido de 2.000 a 3.000 linhas de comprimento - Há divergência entre os intérpretes) e um religioso, místico, denominado de ”Purificações”, cujos temas variam desde a salvação pessoal (incluindo listas de tabus, metempsicose, e escatologia) à percepção sensorial. Estimam-se um total de 450 linhas para os dois poemas, os quais seriam a maior quantidade de texto disponível para nós de qualquer pré-socrático. Tais fragmentos foram conservados, principalmente, sob a forma de citações de autores posteriores (doxógrafos: Simplício, Aristóteles, Plutarco, Diógenes Laércio, entre outros). Também a ele foram atribuídos: um tratado sobre medicina, tragédias e outras obras, mas as fontes não nos dizem nada sobre o conteúdo de quaisquer destes documentos, e estudiosos modernos, em geral, crêem que as imputações eram falsas ou confusas. É imperioso salientar, no entanto, que Empédocles é frequentemente citado como um médico pelos escritores de medicina (Galeno se refere a ele como fundador da escola de medicina siciliana).

1.7. Empédocles, como vimos, seria de origem aristocrática, e teria participado do movimento contra o tirano Trasideu e da denominada Assembléia dos Mil, defendendo a democracia instaurada na sua cidade. Parece ter sido rico e amante de teatro, poesia, esporte e política. Um homem eclético, talvez. Sua filosofia consistia, basicamente, em defender que na natureza existe uma lei imutável. Por ter lutado contra a tirania, teria sido expulso e, por isso, teria passado a vagar, errante, pela Grécia. Deste modo, ele teria tido contato com muitas doutrinas e influências religiosas e filosóficas, como veremos em breve. Uma de suas principais contribuições fora a idéia da “lei da evolução”: "Empédocles definiu que as espécies originam-se uma das outras e que só as mais aptas permanecem em função da seleção natural (processo de atração pela semelhança)”.

1.8. Empédocles parecia crer que tudo o que existe tem origem na combinação e mistura de quatro elementos: água, terra, fogo e ar. A estrutura de sua “teoria” física segue o conhecimento de seus predecessores: Tales, Anaximandro, Heráclito, Pitágoras e Parmênides. Obviamente estão inclusas as idéias religiosas e místicas do dionisismo, do espírito trágico, mas, sobretudo do pitagorismo-órfico. Entre os quatros princípios, a água, a terra, o fogo e o ar, não existiria, nenhuma hierarquia, ou seja, nenhum deles é mais importante ou anterior que o outro: todos estão no mesmo plano. Para que o mundo produza a sua diversidade, esses quatro elementos se unem e se separam, devido a duas forças cósmicas opostas: o Amor (Éros) e o Ódio (Neikós). O Amor que une e o Ódio que separa. Entre essas últimas forças citadas também não haveria hierarquia, pois ambas teriam como destino alternarem-se eternamente e tudo seria constituído a partir da ação dessas forças em movimentos cíclicos. Enfim, não é difícil percebermos no pensamento dos filósofos pré-socráticos concepções acerca da natureza, subjacentes às teorias científicas modernas: o átomo de Demócrito, os quatro elementos e o dualismo amor/ ódio de Empédocles, o movimento e o devir de Heráclito, a geometria de Tales, etc.

1.9. Os autores Kirk, Raven e Schofield na obra: “Os Pré-Socráticos: História crítica com seleção de textos” no capitulo X, tratam dos fragmentos de Empédocles. O primeiro aspecto abordado pelos autores versa sobre a vida deste filósofo. Dos números marginais 332-336 (p.293-294), tanto em grego como suas respectivas traduções em português trazem a tona aspectos da doxografia do filósofo, sobretudo nos relatos de Diógenes Laércio, Aristóteles e Simplício. O mesmo em referência às obras, que na verdade são seus dois poemas. Neste âmbito também Diógenes Laércio é uma referência, ao lado do autor denominado Suda.

terça-feira, 24 de março de 2009

CAMUS E A LITERATURA:

C) O ABSURDO EM KAFKA E DOSTOIÉVSKI:

As obras de Franz Kafka constituem as mais expoentes tentativas de familiarizar o homem com o ambiente externo. São emaranhados de explicações e raciocínios fragmentados da condição humana. Temas como a incomunicabilidade, a burocracia, a desumanização, o estrangeirismo, são comuns ao acervo do autor. São relatos históricos, filosóficos e literários da presença do absurdo. É com maestria que Kafka desenha a ruptura com o alheio:

“Nessa ambigüidade fundamental reside o segredo de Kafka. Essas vacilações perpétuas entre o natural e o extraordinário, o indivíduo e o universal, o trágico e o cotidiano, o absurdo e o lógico se apresentam ao longo de toda a sua obra e lhe darão ao mesmo tempo sua ressonância e sua significação.”

Em O Processo, o bancário Joseph K. vê-se, repentinamente, acusado por um crime que desconhece, que não lhe é revelado. Desconhecendo-o, ignora-o. O processo – cisão entre K e o mundo - se desenrola contrário ao personagem, que é julgado por um Tribunal invisível. Enquanto isso, Joseph não deixa de viver sua vida cotidiana, de amar e ler jornais. Duvida do processo.

Sem esperar, K é preso em sua própria casa, tomando-lhe o sentimento de absurdo, sem sentido e contrariedade. O universo da lei é um universo estranho para K. É imperativo e ele não sabe por que os homens o julgaram, tampouco compreende sua condenação. Certa noite, a justiça vestida de negro vem buscá-lo. É então executado - e, em suas próprias palavras - “como um cachorro”.

O absurdo em O Processo coloca-se diante da ilogicidade da lei:

“Ante a Lei existe um porteiro, e ali se apresentou um lavrador, pedindo a ele que o deixasse entrar no local onde a Lei se encontrava. O porteiro, porém, lhe disse que não podia deixá-lo entrar naquele momento. O lavrador, após refletir um pouco, perguntou se dariam licença para que entrasse mais tarde. ‘ – É possível – respondeu o outro – mas não agora. ’ O porteiro empresta ao lavrador um banquinho, e este fica ali sentado, ao lado da porta, durante dias, meses, anos. Até que, depois de tanto tempo, percebendo o porteiro que seu fim estava próximo, disse ao lavrador bem perto do ouvido: ‘ – Ninguém, a não ser você, pode passar por esta porta, por que foi feita por sua causa. Agora terei de fechá-la.”

O destino de K obedece à lógica da lei, incompreensível aos olhos humanos como a lógica da morte. O efeito do absurdo une-se a um excesso de lógica. A Lei, em Kafka, se impõe como um vazio, um nada, daí a sua irracionalidade, impessoalidade, incongruência. Joseph K. não consegue chegar até à justiça, que, lentamente, se transforma numa entidade misteriosa e quase irreal. Ele não compreende a justiça, os homens ou Deus. Não passa de joguete de forças estranhas, tão impessoais como a burocracia que o condena.

O absurdo reside exatamente na ausência de compreensão, derivada da ausência de comunicação. Está no cotidiano e na lógica, daí o desespero, a solidão e o contra-senso que encobre o mundo dos homens. Assim como Prometeu, Édipo e Antígona, o destino de K fora anteriormente traçado. Esse absurdo rejeita todas as formas de alienação (família, profissão, dinheiro, sistemas filosóficos, religião e o patriotismo). Elas nada podem contra o escândalo do existir.

Em Kafka, não há diálogo ou possibilidades. Essa ausência desempenha um papel relevante. É, em verdade, um recurso literário como conseqüência de sua oposição ao Pai. Segundo seu próprio testemunho, todo o acervo do autor advém do conflituoso lar paterno. O pai, um tipo bonachão, audacioso, de temperamento brutal e dominador opõem-se ao filho, intelectual e contemplativo.

Em O Processo, K., demonstra a liberdade absurda, permanecendo imóvel ante a Autoridade e atraindo sobre si todas as conseqüências de sua atitude. No decorrer do processo ele se comporta como culpado do princípio ao fim; ao invés de inquirir por que o acusam, interessa-lhe saber mais a identidade de quem o acusa, tentando cingir-se de lucidez. Sua tristeza é ter de partir, sem conhecer nem saber que juiz o condena.

Há o domínio unido à culpa. Joseph não pode viver sem se justificar. Então, tende a procurar a Autoridade. E se tal Autoridade não existisse, pensa ele, para que então essas idas e vindas, todo esse sofrimento, todo esse absurdo? Ela existe, mas não é acessível a Joseph. Não há comunicação. É desta forma que Kafka se sente em relação a qualquer entidade todo-poderosa, inclusive divina.

Revela-se a cisão entre a autoridade e o homem, a lei e a vida. É a presença desse aparato judicial, de uma justiça invisível que deixa no ar o gesto cego e impensado de uma acusação e uma sentença que parecem agitar-se no vácuo, funcionando mecanicamente, reduzindo o individuo a condição promíscua de sub-homem.

Essa experiência do cidadão “de bem” diante da autoridade é uma visão antecipada do processo de sujeição do homem moderno ao totalitarismo vivido na experiência do fascismo, nazismo e stalinismo. Advém do judaísmo de Kafka. Há quase que uma previsão do Holocausto: judeus, sem culpa, perseguidos pelo totalitarismo. A perseguição a Joseph K é também um reflexo do sofrimento do povo judeu ao longo das décadas:

“Se quisermos alguma pista sobre o mérito da condenação de Joseph K, precisamos remontar às condições históricas do povo judeu, que no século I a.c. foi tomado pelo desespero de cumprir a lei, segundo observa Ortega y Gasset. Talvez aí resida o pecado, o crime oculto daqueles personagens, provocando a vingança da lei, com a mesma fria e distante crueldade do Deus do velho testamento.”

Em O Castelo, o personagem, também de nome K., como Kafka e Joseph K., não consegue apresentar-se ao Castelo a que fora chamado, a convite do Conde. Sempre fica detido nas imediações do palácio. A realidade deforma suas aspirações. A obra O Processo levanta um problema que O Castelo, em certa medida, resolve.

K. é um homem só, à procura do misterioso Senhor Klamm. Klamm é um homem poderoso que representa o castelo. O castelo é o poder. Klamm é a personificação, pouco nítida, propositadamente difusa, desse poder. Mas trata-se de um poder que cultiva a ignorância, primeiro e decisivo passo para a submissão dos servos. Convém manter a cegueira. A burocracia, enorme, monstruosa, aterradora, é a carapaça, a armadura, que protege os poderosos e mantém os súditos afastados, submissos:

“K. se emprenhará em encontrar seu caminho, encaminhará todas as gestões, fará astúcias, tergiversará, não se zangará nunca e, com uma fé desconcertante, tentará exercer a função que lhe confiaram. Cada capítulo é um fracasso. E também um recomeço. Não se trata de lógica, mas de perseverança. Na amplitude dessa teimosia está o trágico da obra.”

O personagem K. é um estrangeiro insatisfeito, insubmisso, que procura por todos os meios penetrar nessa carapaça. Por isso é incompreendido e mesmo desprezado pela aldeia. Rejeitado pelo meio, não consegue comunicar-se eficazmente com ninguém, sofrendo a opressão das autoridades e dos habitantes da comunidade. Ele é uma ameaça para aqueles cuja vida corre sem acidentes, sob o manto protetor do poder. Ele é uma ameaça à suave cegueira do reino.

K., não consegue moradia, amizade, trabalho, simpatia, não consegue manter ou consolidar qualquer tipo de relacionamento. Ele permanece fisicamente próximo ao Castelo, mas não pode ultrapassar determinado limite, da mesma forma em que o lavrador permanecia próximo ao porteiro, sem poder atravessar a porta da lei.

Incomunicável, novamente o absurdo vem à tona. Devorado, ele se perde num ambiente hostil, sem diálogo e solitário. Após sua morte, não tem sua cidadania decretada.
Para Albert Camus, o pensamento de Kafka coincide em muito com o de Kierkegaard. Trata-se de um salto para o divino, uma deificação do absurdo. N’O Castelo , a palavra do agrimensor é, em verdade, a de tentar encontrar a divindade por intermédio daquilo que a nega:

“Esse estrangeiro que pede para ser adotado pelo Castelo está um pouco mais exilado ao final de sua viagem porque agora é infiel a si mesmo e abandona a moral, a lógica e as verdades do espírito para tentar entrar, com a única riqueza de sua esperança insensata, no deserto da graça divina.” (CAMUS, 2007, p 153)

Encontra-se na referida obra o paradoxo do pensamento existencial, e vislumbra-se o início de esperança. Como Kierkegaard e Chestov, Kafka abraça o Deus que o devora. O absurdo da existência revela-lhes um pouco mais da realidade sobrenatural. Para eles, o caminho da vida termina em Deus, daí a perseverança dos filósofos e dos heróis kafkianos.

"Kafka nega a seu Deus a grandeza moral, a evidência, a bondade, a coerência, mas é para melhor se jogar em seus braços." (CAMUS, 2007, p 155)

Para Camus, há, de fato, no pensamento kafkiano a noção de absurdo. O herói de Kafka se resigna a ele, mas a partir de então, ele deixa de existir. Há o “salto”, a mentira, a transmutação, porque o absurdo como condição é essencialmente sem amanhã, sem esperança e a obra de Kafka está repleta de situações esperançosas, e não desesperadas, como, em princípio, poderia se supor:

“Vejo, uma vez mais, que o pensamento existencial, contra a opinião comum, está pleno de uma esperança desmedida, a mesma que, com o cristianismo primitivo e o anúncio da boa nova, sublevou o mundo antigo. Mas nesse salto que caracteriza todo o pensamento existencial, nessa teimosia, nessa agrimensura de uma divindade sem superfície, como não ver a marca de uma lucidez que renuncia a si mesma?" (CAMUS, 2007, p 155)

Dessa forma, para Camus, Kafka não é, em verdade, um escritor absurdo. Seu pensamento insere-se na tradição universal e uma obra verdadeiramente absurda não pode ser universal. Ela apresenta a problemática do absurdo, mas não é absurda. Kafka soube, com maestria, representar a passagem cotidiana da esperança à angústia e da sensatez desesperada à cegueira involuntária:

“Sua obra é universal na medida em que aparece nela o rosto comovente do homem fugindo da humanidade, extraindo de suas contradições razões para acreditar e de seus desesperos fecundos razões para esperar, e chamando de vida sua apavorante aprendizagem da morte. É universal porque sua inspiração é religiosa. Como em todas as religiões, o homem ali se libertou do peso de sua própria vida. Mas assim como sei disso, e posso até admirá-lo, sei também que não busco o que é universal, mas o que é verdadeiro. As duas coisas podem não coincidir.”

O pensamento verdadeiramente absurdo é aquele que, – contrariando Kafka - uma vez descartada toda a esperança de um futuro perdido, descrevesse a vida de um homem feliz. Assim se transmite a mensagem de Camus, sempre em busca de uma felicidade, ainda que impossível, consolidada por uma

“lucidez estéril e conquistadora, numa obstinada negação de todo consolo sobrenatural.” (CAMUS, 2007, p 156)

Por outro lado, em Dostoiévski, todos os heróis se questionam sobre o sentido da vida e só o radicalismo é possível. Os personagens assumem posições extremistas: ou a vida é um engano ou é eterna. É o raciocínio absurdo que se faz presente e, desenvolvido, culmina no interesse principal do autor: o suicídio lógico.
A existência seria absurda porque não é eterna, logo, como poderia o homem não se matar? Há várias maneiras de se interpretar o pensamento de Dostoiévski. Para Camus, os heróis dostoiévskianos matam-se porque, no plano metafísico, sentem-se envergonhados. É como se o homem, sofredor, absurdo, se vingasse de um ser que desconhece e que o condena a viver.

Na obra Os Demônios, o tema do suicídio lógico é tratado com mais veemência. O personagem Kirilov, tem a idéia de se matar. Trata-se de um suicídio superior porque enredado numa idéia-base. O pensamento do engenheiro Kirilov é captado da seguinte maneira:

“Deus é necessário e é preciso que exista. Mas sabe que não existe e que nem pode existir.”

É daí que decorrem as conseqüências absurdas. O gesto de Kirilov acaba por representar sua liberdade e revolta. Não se trata mais de vingança, mas de revolta:

“Se Deus existe, então toda a vontade é Dele, e fora da vontade Dele, nada posso. Se não existe, então toda a vontade é minha e sou obrigado a proclamar o arbítrio. (...) Sou obrigado a me matar porque o ponto mais importante do meu arbítrio é: eu mesmo me matar.”

Kirilov é um personagem tanto absurdo como revoltado. Em seu raciocínio, se Deus não existe, ele é o próprio Deus. Eis a lógica absurda! Como crédulo, é preciso que morra para tornar-se Deus. Esse é o sentido buscado por Kirilov – um homem comum, apaixonado, que nada tem de louco e que não se pretende como deus-homem, anexando, assim, o ideal de Cristo.

Se Cristo, ao morrer, não se encontrou no paraíso, sua morte foi em vão. Jesus morreu por uma mentira e é assim que encarna todo o drama humano. Torna-se, pois, um homem absurdo. Não é mais o deus-homem, é o homem-deus, tão desejado e proclamado por Kirilov. É assim que ele se sente: crucificado e enganado. Precisa dar fim a este sentimento; quer tornar-se, também, um homem-deus para se sentir completamente livre:

“Durante três anos procurei o atributo da minha divindade e o encontrei: o atributo da minha divindade é o Arbítrio! Isso é tudo com que posso revelar, em sua parte central, minha insubordinação e minha liberdade nova e terrível. Mato-me para dar provas de minha insubordinação e de minha liberdade terrível e nova.”

O que Camus questiona em O Mito de Sísifo é que, descoberta a liberdade, porque dar fim a ela? Se é possível assassinar a idéia de divindade, porque matar-se necessariamente? Kirilov se mata porque é um crédulo. Mata-se por amor à humanidade, sacrifica-se em prol do outro, do alheio e por isso comete um suicídio pedagógico. Mas como já observado, é da revolta que nasce uma nova possibilidade e liberdade, não da morte.

Tal qual Kirilov, Stavroguin e Ivan Karamazov são personagens absurdos. Angustiam-se e sofrem, cotidianamente, como qualquer um de nós. A diferença é que são “reis”, conforme analisa Dostoiévski, porque descobriram a lógica absurda de que “Se Deus não existe, então eu sou Deus”. Stavroguin é rei na indiferença e Ivan é rei na loucura.

Ivan não aceita o mal e por isso rejeita a idéia de divino. Rejeitado Deus, Ivan busca um ideal superior: encontra a justiça.

“Ele inaugura a empreitada essencial da revolta, que é substituir o reino da graça pelo da justiça.” (CAMUS, 2005, p 75)

É assim que o personagem encarna a recusa da salvação e rejeita a barganha da fé pela imortalidade. É o típico revoltado porque ainda que acreditasse e pudesse ser salvo, outros seriam condenados; o sofrimento continuaria:

“A revolta dostoiévskiana reconhece valores na busca do reino da justiça. Por essa razão Ivan Karamazov vê-se lançado no terrível conflito entre a lógica niilista do absurdo (‘Tudo é permitido’) e as aspirações morais que determinaram sua rebelião original.” (BARRETO, 1970, p 77)

Tanto em Camus como em Dostoiévski, o tema do absurdo leva à seguinte questão: o que tudo isto prova? Dostoiévski pretende provar que a fé na imortalidade humana é necessária para que os homens não se matem; crer seria o estado natural do ser humano, que busca para si a extinção da dúvida. Para concluir o pensamento, o autor russo escreve Os irmãos Karamazov como forma de responder a Os Demônios.

“Assim, não é um romancista absurdo que nos fala, mas um romancista existencial.” (CAMUS, 2007, p 125).

É, precisamente, o “salto” ao transcendental, ao divino, existentes em Dostoiévski, Kafka, Kierkegaard, Jaspers e Chestov, que Camus não aceita.

“É difícil acreditar que um romance tenha sido suficiente para transformar em alegre certeza o sofrimento de toda uma vida.” (CAMUS, 2007, p 126).

Como em Kafka, a obra de Dostoiévski não é equiparada à obra absurda, mas a uma obra que traz a problemática do absurdo. Não é absurda porque traz respostas a questões que não podem ser respondidas.

A obra dostoiévskiana contradiz o absurdo, não por ser cristã, mas por anunciar uma vida futura, post-mortem, como prêmio de consolação. Para Camus, é possível ser cristão e absurdo simultaneamente. O que ocorre é que Dostoiévski preferiu seguir a lógica de que a vida é enganosa e eterna.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Naufrágio

Eu sabia que não seria fácil.

Havia em mim uma propensão para a metade.

Livros pela metade, amantes pela metade, filha pela metade, amiga pela metade, Milena pela metade. Direção para o medíocre.

Mas para ele seria diferente...

Deitada sobre as costas do que penso, edificava um universo em mim.

Pensava nos espaços a percorrer; na distância entre as nuvens que, como quebra-cabeças, dispunham-se lado a lado, encaixando o céu imenso; no que poderia acontecer se acaso a hora de tédio fosse embora e novas horas tristes e infinitas tornassem a me invadir.

Boiava suavemente nas águas de uma cidade que não era minha e deixava meu corpo despertar sobre um lago de estranhas incertezas.

Sem relógios de pulso, a cada respiração imaginária caía sobre mim a noite escura e as margens do lago diminuíam: sentia frio. Tive medo. Vivia como quem esperava.

O lago transbordou e atingiu meu quarto. Afoguei-me na cama e, em noites de pouco sono, ainda sofro com pesadelos ribeirinhos.

Sinto que, como no jogo, minha respiração tem duração determinada.

O ar que me consome quer partir.

E quem é esse menino que não me quer deixar afundar?

Na verdade, nem sei se quero sabê-lo.

Sem botes ou colete salva-vidas, procura um remo perdido em mim.

Tem postura cubista, de Picasso brasileiro. Ronda com seu olhar satisfeito, de herói andarilho, os caminhos que não tenho. É de cabelo estreito, o que me agrada muito. Pouca fala, muito riso e um perfume de mistério que eu não consigo desvendar.

"O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia."

Éramos como areia e mar: próximos por avançarmos um no outro, distantes porque queríamos demais. Duna tentando virar deserto. Onda tentando encobrir: fugia de mim e depois voltava e tornava a fugir.

Vivíamos felizes pelas manhãs de domingo e esperançosos pela madrugada ligeira. Vagávamos pelas ruas e sabíamos mais do que a cidade. Nossos olhos perguntavam-se o que haveria depois e ensaiávamos curtos silêncios entre os beijos e a vontade.

Tudo parecia me afetar novamente. O amanhecer soava-me como aproximação e o frio fazia sentido em minha cama, agora livre de enchentes. O sol acalmáva-me e não havia nada mais belo que ver as folhas caindo, numa manhã de quarta, sobre meus pés gelados, descalços, prestes a correr pela calçada da minha vida.

Não sei o que sinto e o que me espera depois. Não quero pensar no depois.

Tento vencer o presente, sem tropeçar pelas sarjetas.

Não gosto de praias, nem de desertos, mas tenho uma imensa vontade de naufragar naquele verde mar, só eu... pó... e mais ninguém.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Que espetáculo coerente, esse, o dos meus compatriotas!

Começam por devolver a hostilidade que lhes foi atribuída pelas tardes de piadas estúpidas.
Concentram-se, emitem ruídos sem sentido, conversas de sei lá o quê, risos de ignorância e fim.
Dançam nos quartéis da indiferença, rodopiam com gestos grosseiros, ensaiam palavras tolas e jorram repugnância, esses transeuntes de si.
O texto é deplorável e a atuação decadente.
Atores de quinta, eu sei.

Mas quero limpar o palco e não consigo.
A cortina vermelha pesa e não quer fechar.
O tempo não quer encerrar.
Os bilhetes continuam a venda.

Sentada na poltrona da frente, prisioneira do quartel, fecho meus olhos, tapo os ouvidos e tento respirar a gratuidade da fumaça que é o único elemento verdadeiro no ambiente.
Os pulmões ressentem, o estômago induz.

Não tenho mais espírito para o que não for verdadeiro.
Essas farsas já não me apetecem.
Acabo por vomitar.

Acordo e noto que estou deitada, em segurança, no meu quartel horizontal.
Sonhei?
Escovo os dentes e o espetáculo recomeça, incansável, interminável,
nessa fuga rotineira do teatro da salvação.

Enceno pequenas tragédias, componho algumas peças e corro para o sono da justiça.


Como vício, tenho meus cães: livros, fiéis amigos, a quem ouso julgamentos e trocadilhos.

Não é a toa não ter escolhido a infantaria.
Não participo da guerra do ilusionismo.
Não tenho alma ou arma para marchar.
Gosto dos terrenos altos, sem condições para soldadinhos e combates rítmicos. Sou minha própria legião, atiro para acertar.

Mas ainda prefiro o teatro à trincheira.


O palco ao campo de batalha.

Represento para fuzilar.

Quem, comandante, exerce força maior?


Eis o poder de interpretar!

terça-feira, 6 de maio de 2008

Mergulhei na claridade dessas folhas brancas para escrever curtas linhas de inquietude.

Tenho a morte como o verdadeiro e único ato solitário. Há alguém no mundo que não morra só?
Perdemo-nos quando deixamos de ser e o nosso corpo o faz sozinho. Ainda que outros nos tirem a vida, é à nós que a morte atinge.
É por isso que os homens temem a morte. E, em verdade, não é exatamente ela.
É o abandono. Porque o abandono é a morte do mundo e dos outros eus. É o esquecimento.
Quem choraria a nossa ausência? Quem deixaria flores aos domingos?

Abandonados, morremos sozinhos e sem consolação. Daí a necessidade da família - a importância das relações exteriores.

Quando não se tem medo do abandono, cria-se a corcunda da consciência.

Respiro e envelheço a cada percepção sofrida.

Morro e dispenso flores e epitáfios.

Toquem trompete, clarinete, oboé.

Mas deixem-me consumar o único ato de que sou verdadeiramente capaz!

segunda-feira, 5 de maio de 2008



A razão me atinge como um pássaro.
Ainda pequena, precisa dos meus cuidados.

O corvo estirado nos cercados de minha individualidade espreita a frieza a que me convidam os batedores de asas. Sobrevivente o corvo, ele se torna cansaço, ao bicar as gaiolas de minha consciência prematura, contrariada por não se fazer transbordar.

Faço das penas frias travesseiros, ao pender a cabeça e fechar os olhos.

Releio os diálogos de minha vida dormente e precipito-me em adotar minha subjetividade constatadora. Ela é negra como o corvo.

Os abutres da realidade insistem em me invadir e, com suas asas, delicadamente se jogam aos abismos das minhas vontades. Sem perceber, disparam conceitos e fronteiras. Restringem-me.

Começo por soluçar vôos que tendem a ser esmagados pelo vento do soprar diário. Tentativas de cair, assolam-me. Ao primeiro encontro, regorgitam-me expectativas alheias.

A visão aguçada, obtida pelas observações a que me proponho, perdeu-se nas margens do que sou. Os limites me cortam, as exatidões nauseiam.

Não poderia impor racionalidade a esses trechos, insignificantes, de pouso forçado.
Que sei de mim? Cercada por esse inconstante emaranhado de letras pretas, arriscando compreensões relativas e infinitas?

Termino por colar nas paredes do meu ser as idéias traduzidas, as lembranças transfiguradas, as verdades contraditórias, minhas suposições de delírio e sangue, de ave sem liberdade.

Nasço da possibilidade que tenho de imaginar um mundo sem mim. Convivo com a certeza de deixá-lo a qualquer tempo.

Ao me afastar da entrada da gaiola, vejo planar no horizonte a aurora da minha vida.
E me torno veloz, absurda, realizada e feliz.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Mudança

Tenho a cabeça pesada como as caixas em que ergo minha vida pronta, anteriormente criada.


Os sacos pretos não escondem a alma insolente, ela transparece diante do mínimo toque. É malcriada, vadia. A qualquer sinal de intromissão, ela vomita suas vontades insalubres, podres.


É o lixo estocado pelos anos de pálpebras cerradas que a faz trancafiar-se em plásticos escuros. E logo ele será jogado fora, como se nunca tivesse sido útil. As memórias não cabem nas caixas de papelão. Carrego-as pelas costas, como um fardo, com um cansaço de quem tem a função habitual e assalariada de lembrar-se.


As escadas a que me acostumei não são suficientemente íngrimes e os degraus são baixos demais.



Tudo muito apertado para a amplitude da minha defesa.


Toda mudança é baixa. É baixa para que possa crescer.
E silente para que possa tornar-se.

O tédio, na sacada que poderia existir, é só meu.
E a cama quente, ao tentar confortar a cabeça-mãe, atormentada por preocupações cotidianas, afoga as esperanças de uma mente vã e mesquinha, que, agora, só quer saber de se ausentar.


Os sonhos já não são meus: foram-me preparados para que, dormindo, eu os tivesse em contemplação tardia, mas real. Meu inconsciente tornou-se consciente de si. Fumaça do meu ego.
As escolhas foram-me matematicamente projetadas, sem que, ao menos, eu as desejasse. E são fiscalizadas, dia-a-dia, pelo patrão ao lado, para que não nasça nenhum erro psico-social.


Torna o tempo a traduzir-se em perda e a última porta trancada me espera.


É a porta de madeira entre a separação e o adeus. Não tenho a chave.

É assim que vivo: esperando que alguém abra a porta, completamente, para mim
.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

www.releituras.com

Para Dalila

Para Dalila




Nunca me esquecerei daquele sorriso de despedida e do pequeno diário que me foi entregue no dia em que a máscara caiu. Seus cabelos negros – tão longos quanto o amor que eu jamais sentiria novamente - eram poder e força; mas seu nome era Dalila. Minha Dalila.


Os olhos calmos e azuis se confundiam com sorrisos constantes e a auréola da inocência parecia-lhe transbordar da alma. Alegria, calma e sinceridade a compunham. Assim era minha pequena ou pelo menos, assim eu pensava ser.


Eu era seu professor de História e a História foi a grande responsável pelo nosso amor proibido. Morávamos em uma cidadezinha conservadora e retrógrada ao sul da Espanha e foi na primavera do ano de 1939 que inciou-se a minha desgraça. Naquele ano, Dalila e eu nos enamoramos. Era um namoro secreto e minha pequena insistia em mantermos em silêncio a nossa paixão. Eu não entendia bem o porquê; Dalila explicava-se dizendo que eu era muito “velho” para se relacionar com ela, e que a sociedade e a escola em que eu lecionava não “nos” aceitariam como amantes. Foi também no ano de 1939 que se iniciou a ditadura franquista - mais um motivo para não nos envolvermos; o motivo maldito da minha eterna saudade. Dalila estava certa.


Tudo começou com alguns tímidos olhares, para que viessem os bilhetinhos e, por fim, as cartas de amor e os beijos apaixonados. Dalila e eu fugíamos para um mundo só nosso, entretanto, quando em público, vivíamos de aparências, como meros professor e aluna. Éramos atores, personagens de um mundo de amor e de sonhos e a nossa vida era um palco, uma peça teatral (creio, hoje, uma tragédia). E a garotinha tão jovem, tão inocente, tão perdida de si, fez-me eterno perdido e arruinou-me a vida, despedançando-me a alma.


Nossos freqüentes encontros no bosque do colégio se tornavam cada vez mais perigosos. Sua família já estava desconfiada, alguns alunos já comentavam e então, para o meu desgosto, acabei sendo expulso do colégio. A notícia de nosso amor se espalhava pela cidade e as pessoas todas se horrorizavam: não era nada fácil viver em uma sociedade moral-cristã, regada pela hipocrisia e ignorânica, e, mesmo assim, eu nunca abandonei minha pequena; pelo contrário, amava-a cada vez mais.


Marquei, então, um encontro com Dalila na Igreja da praça central. O dia estava calmo, o calor era intenso e o ar parado, como se algo de ruim fosse acontecer a qualquer momento. Dalila acenou e fez um sinal com as mãos para que eu fosse encontrá-la na sorveteria da esquina. E eu, sem saber que seria esse o dia do meu infinito martírio, fui até a sorveteria, sentei-me, olhei-a e a amei em silêncio.


A pequenina trazia algo nas mãos, algo como um livro. E realmente o era - era o livro tardio de sua vida. Com suas mãos de anjo, Dalila me entregou o livro, sorrindo, sorrindo um sorriso de despedida – podia jurar ter visto uma lágrima cair-lhe da face. Então aconteceu aquilo com o que até hoje eu não me conformo: a pequenina, a inocente, a alegre e pura Dalila foi presa, na minha frente, pelos policiais franquistas. Pasmo, sem saber o que fazer, fiquei ali, paralisado, implorando por misericórdia.


As mãos de anjo da criança foram arrancadas das minhas mãos de mestre.

Os franquistas não levaram minha pequena pelas mãos: levaram-na pelos cabelos, arrastando sua face contra o chão sujo da praça e mesmo assim, sempre feliz, Dalila sorria. Foi então que percebi que os cabelos de Dalila não significavam força, não significavam nada senão mentiras.


Gritei durante horas, chorei durante dias e amei, amei e amei. A ausência dela era minha dor presente e, já quase desistindo da vida, de súbito me veio a lembrança do livro que Dalila havia me entregado naquela tarde desvairada. Peguei-o e li. Li até que meus olhos (inchados de tanto chorar) e minha mente me impediram de continuar. O que Dalila havia me entregado era um diário, seu diário, que contava nada mais que toda a sua vida, que narrava nada mais que sua essência e natureza, que me mostrou quem era a verdadeira pequena, sem máscaras ou mentiras. Eu realmente não a conhecia.


Acho que os escritos eram mais uma confissão, um pedido de perdão, do que um diário.

Dalila começou falando sobre seu namoro de três anos com Gavin, um garoto basco que eu não conhecia. Além de viúvo, eu me tornara corno!

Caminhando entre as linhas e as palavras de Dalila, chorando feito menino, descobri que além de namorar, ela era comunista, subversiva, vingativa, triste e infeliz. Quase que em todas as páginas do seu diário, ela se descreve chorando, sozinha, e dizia que seu único desejo era a morte. Dalila queria morrer.


Em nenhum momento a pequena, agora comunista, escreveu sobre mim.

O que eu era para ela? A morte?

Dalila foi realmente uma brilhante atriz. Descobri que a ingênua sabia fazer bombas, gostava de Garcia Lorca, filosofava e não era uma burguesinha fútil e fria como pensei. Mas também não era forte como aparentava, nem era viva e feliz; sua inocência não passava de tristeza enrustida

(Interpretastes muito bem teu papel, Dalila! E mesmo não me dedicando uma letra sequer do teu diário, sei que me pedias perdão - não pela traição, mas por me ter sido tão alheia, por ter me enganado fingindo-se. Eu sei, querida, que querias buscar-te a ti própria e apenas te encontraste na morte. Querias morrer honrada, então, agora, dedico minhas palavras de morte a ti, escrevendo esta confissão absurda).


Dalila, minha dramaturga, me enganou e seu destino foi cumprido. Em toda sua existência teatral, a pequena fingiu-se e encerrou sua tragédia sendo fuzilada pelos franquistas em 1942. Dalila morreu da mesma forma que morreu seu poeta predileto. Até nisto ela era perfeita: morreu encenando! A máscara desceu-lhe da face e a morte elevou-se da vida. E eu que nunca fora amado sinto-me triste, cansado - triste, porém liberto e nos meus 37 anos ainda penso na pequena garota de 18, tão querida por todos, exceto por si própria.



Alberto Márquez, 18/05/1945





(narração escrita por mim, aos 17 anos, em uma aula de Redação – 23.08.03)

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Antigo...

Só encontro felicidade em sonhos.
É por isso que tenho olheiras enormes.
A minha cama é a minha nave espacial e especial.
Nela, eu percorro os caminhos do eterno retorno.

2004
Propuseram-me um pacto:
Habita em ti somente em ti e para todo o sempre em ti!
Aceitei.
Mas eu habitei em Mi, somente em Mi e para todo sempre em Mi.

E não há que chorar desencontros.

Hei de chover!

Relato de um dos meus dias...

O relógio anunciava a manhã.
Mais uma das várias manhãs que ela teria de enfrentar pelo resto de todas as manhãs.
Olhou para o tempo e deu-lhe de ombros, ainda com sono.
Ela deveria estar prestes. A manhã lhe esperava e os estudos também.
No entanto, as aulas de Direito Penal poderiam ter mais ritmo em seus sonhos incríveis.
Com a cabeça no travesseiro, estendeu o braço esquerdo e desligou o tempo. Não se sabe se o Direito Penal se fez presente em seus pensamentos; é provável que não. Os sonhos já não tinham importância. O objetivo era: não ter de acordar.

Infelizmente, o sol refletia em suas curvas, já suadas pelo calor matinal.
A obrigação gritava aos seus ouvidos.
Levantou-se, caminhou até o banheiro.
Antes de tirar de sua boca o gosto da noite, olhou para o espelho e viu o que não gostaria. O reflexo das olheiras era a prova de sua inútil tentativa. Cuspiu para fora de si todo o gosto da noite anterior e se fez bela para pagar a conta telefônica.

Tropeçou duas vezes. Suou como nunca.
O sol não a deixava esquecer que ainda era dia.
Enfrentou uma fila estranha.
As pessoas pareciam recém chegadas de planetas distantes do planeta em que ela pensava viver. O ar-condicionado trazia os arrepios.
Despediu-se da frieza do ambiente, saindo pela porta giratória. Quando pequena, adorava acompanhar a Dona Ilda até os bancos, somente para sentir-se girar.

Desceu os degraus de sua infância e retornou ao ponto de partida, assim como seu planeta fazia. Ao chegar no ponto, encontrou-se com uma simpática e loura senhora.
Ela estava lavando os novos degraus que a garota do banco teria de subir.

Cumprimentaram-se e três andares foram acrescidos à pequenina.

Essa foi a história de metade do meu dia. 11/04/05

Diálogos de um fantasma de meia-noite

Diálogo de msn, com um ex, transmutado em texto:

Ele dizia: "Buhhhhhhhhh!!! Era o barulho de um fanstama tentando preciptar-se na minha vida. Grande ilusão: ele nada tinha de assustador. Simplesmente não me amedrontava. Em verdade, ele nada tinha de "camarada", mas perdera todo o seu fascínio. Que importa passar por portas, se não se pode abrí-las p/ outros passarem consigo? Ah, eu não consigo mais ter medo!"

E o fantasma respondia: - O que penso é irrelevante, mas, você fez a interpretação errada. Fantasmas não são para assustar, são para vagar e para permanecer presentes mesmo que já estejam mortos. Por isso, atravessam barreiras e não desejam que outros abram as portas; preferem a solidão. Para quê portas abertas se ninguém pode os ver? São gelados como o frio curitibano para que sejam realmente sentidos, para contradizerem o calor.
Fantasmas não são fascinantes, são fascinados.

O "buhhhhh" não tem intenção de assustar, mas, intenção de dizer: "veja, estou aqui, presente, do seu lado, sem vc sequer imaginar. Não me veja, sinta apenas..."
E, como bom fantasma, sei do que falo.
O nosso objetivo fantasmagórico é passar pelas pessoas sem sermos notados. Queremos que apenas alguns poucos tenham esse privilégio de sentir toques gelados de presença de distância.

E ele acrescentava: "E o pobre fantasma continuava a envidar esforços no seu engodo de tentar me persuadir que sua reputação ainda era a mesma de outrora. Sim, ainda há pouco contara que atemorizou uma casa inteira, numa erma rua de Curitiba".

E o fantasma indagava: - Não! não confunda este fantasma com o fantasma nitzscheano. Fantasmas não tentam persuadir. Penso que reputação não é a palavra adequada... se não, serei obrigada a crer em um amigo moralista!
Fantasmas são feios, gélidos e imperceptíveis. Há algo mais tarziano que isso?

E ele dizia: "Você ainda ñ conhece esse fantasma."

E o fantasma retrucava: - Não... você que o desconhece e assim o quer. Pensa que o conhece e finge o contrário. Lembre-se, caro amigo: fantasmas não têm coração, mas os "assombrados" têm.
Isto tudo é somente um "Diálogo de Fantasma de meia noite", e quando você pensa que o matou, foi ele quem acabou contigo.
Fantasmas já estão mortos e não voltam para o mundo dos crentes, a não ser que desejem (por acaso) o seu eterno retorno. Eterno retorno...
E como o bom fantasma que sou, não espero compreensão, nem sua, nem de qualquer outra crença.

E o amigo inocente insistia: "Qual a minha importância para um fanstama? Por que raios ele quer passar e interferir em minha vida? Definitivamnete, havia algo de errado. Quanto mais luz (razão?!) entrava no meu quarto, menos fantasma existia. Ele ia se desfalecendo. Novamente um barulho. E, então, um mero lençol jogado no chão, com dois grandes furos na parte superior. Quem o usava??? Quem o usava??? Buhhhhhh. Agora sim eu sinto medo."

E o fantasma se cansava: - Quando você vier a padecer, compreenderá.
Morrerá acorrentado por suas convicções e não poderá sequer vagar.
Você quis desconhecê-lo e será assombrado por essa idéia até se tornar o próprio.


Continua...

15/07/2005

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Comércio


Eu fui trocada.


Trocaram-me por pés descalços a caminho do entardecer do amor,
Por pedaços de comida e sangue, cheiro do desconhecido, vaidade e armas.
Já fui trocada por palavras escritas, silentes, somadas, alheias
E me dei ao luxo de competir com o esquecimento e a discórdia.


Belas vestes já me substituíram, ao longo das minhas condições.
Medos e carícias, loucura, razão e todos os tipos de bebidas.
O vinho me roubou.
Os vícios do consentimento e as estátuas traíram-me.


A saudade retirou tudo o que, aos poucos, compusera-me.
Canções tomaram-me o lugar,
Olhares abaixaram-se, tristes, para além do meu eu.
Papéis voaram de mim, cortinas fecharam-se,
E remédios aliviaram a dor que eu causava.


Trocaram-me por camas quentes, joelhos sadios, mentes adestradas e pedras.
Da minha boca fez-se ausências, luares, mordidas, verdades, insetos.
As mentiras que contei foram tidas como sorrisos
e as lágrimas como câncer.

A doença caiu melhor que eu.
A madrugada era melhor companhia.
As rezas sabiam acalentar.
A bola era ideal.
Eu era a outra.


Eu já fui trocada por todos os tecidos, rumores, atrasos, comparsas, desertos, guitarras, chutes e automóveis.
As compras satisfazem mais.
As novelas distraem melhor.
Os pulsos são mais fáceis.



Trocaram-me até por um par de óculos!


E os meus cegos não percebem que ao confundir mistérios,
suas trocas -
mesquinhas, capitalistas -
refazem a amante religiosa em mim
ajoelhar-se para a gratidão do afastamento.


O inferno não são os outros.

O purgatório são os outros...
essa eterna espera posterior à troca e anterior ao adeus.

(Foto do Manto de Napoleão Bonaparte, tirada por mim, no Museu do Rissorgimento, em Milão.)

sábado, 3 de novembro de 2007

Com as mãos entrelaçadas, como se estivesse clamando, pedindo,
Com o queixo em riste e olhar cabisbaixo,
Percorro os minutos, expulso os segundos,
E deixo o tempo se esvair, levando as tempestades da minha alma.
Elas são frias e fazem doer as costas e o peito.

A chuva parou e o meu céu está quase quieto.
O cheiro de gotas pelo ar assombra minha noite,
enquanto ainda ouço o barulho do inacabado.
Despedaço minhas pálpebras ao olhar para o monitor brilhante
que insiste em carregar minhas mãos para essas letras vadias,
navalhas, policiais, estúpidas.

A respiração do cão está ofegante e ele dorme ao meu lado,
como se velasse meu sono ou me vigiasse, prestes a acordar para me revelar seus sentidos. O vento que sopra é áspero, cortante e, logo, fechei a janela. Mas o calor não me deixar ir. Quero dormir e meu corpo não permite.

Ligo o condicionador de ar e penso em todos os ares, todas as reais existências - pleonasmando - que são condicionadas.

O tempo é a minha condição.

Às vezes me pergunto quantas condições tenho imposto à mim mesma, ao longo da minha maior condição. Nunca fui boa em matemática; há diversos símbolos que desprezo. Mas sempre gostei de procurar respostas, sempre me senti atraída pela dúvida. E essa resposta eu só terei quando cessarem todas as condições.

Isso me lembra Fernando Pessoa: "quero ser eu, sem condições".

Mas a minha vida anda como meu intestino: só funciona de vez em quando.

Pedaços de cabelo caem no teclado.
Amanhece e eu desligo o ar.
Durmo com o cão, com a dúvida e tenho sonhos atemporais.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Propriedade


Paguem suas contas em dia
Livrem-se do cartão da agonia
O melhor da vida é o consumismo e a cria


O prazer do cheque e do ter
A moeda que se fez perder
É o vazio que te torna ser


É como se o possuir da pedra brilhante
Cegasse a figura infante
Que éramos ao nos conhecer


É como se a nota valesse mais que a mente
É como se entortasse a gente
Num mundo que te faz crer


Que a melhor solução é usar
Aquilo que te faz aparentar
O que pensam que é você


Ser ou não ter?



Mais uma besteirinha da infância - 15/02/2002

sexta-feira, 28 de setembro de 2007


Dentro de blocos de pedra
Movimenta-se um mundo silente
Enterram conversas e medos
Destroem saltos e quedas
Distribuem letras e segredos
Em garrafas de um licor ausente


O líquido de dor transparente
Acalenta o peito que grita
O inaudito choro noturno
A cidade embriagada se agita
No ápice que tudo limita
A fala de um querer ardente
O auge de um amor soturno.



Besteirinhas da infância.








Tenho medo de que a inconsolável agulha do tempo encerre minhas histórias
sem que eu as contemple e termine e de que a ausência se torne uma algema, ao lado da lembrança projétil.

Temo a idéia de que a miséria do conforto recaia sobre as minhas escolhas e de que o hábito sente em meu colo.

E por hoje
Não quero mais me expor.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Pequenina





Às vezes sinto o cheiro do cloro da piscina, quando de domingo à tarde, eu ficava na beiradinha, esperando pelo almoço.
O sol nunca me atraiu;

Na praia, eu sempre fugia dele.

O calor me deixa irritada e minha pele, frágil, não agüenta a energia. Também nunca suportei a água. Não gostava de quando via meus dedos enrugados, não gostava de me sentir peixe, nem de sentir frio.
Eu gostava da piscina, não por ela aliviar meu calor, mas por tudo que ela me representava numa tarde quente de domingo.



Nada de missas.



Domingo era o dia da Mpb, do choppinho, da bóia de braço, dos saltimbancos, de andar de bicicleta na pracinha, tomar picolé na padaria, sentir cheiro de caipirinha, pensar no churrasco, brigar com o irmão e ver os avós.


E era em volta das piscinas da minha vida que tudo isso acontecia.

Em casa, no sítio, no clube de campo, na praia, era sempre ao redor da água que eu passava os melhores momentos.


Logo de manhã, eles liam os jornais e eu já me preparava com a toalha. Depois, mamãe ia para a cozinha preparar aperitivos e o almoço. Ele ia para a piscina, beber caipirinha e tomar sol. Às vezes me obrigava ao exercício - hoje, eu detesto polichinelo. O melhor exercício era com as bóias... como eu adorava minha bóia de estrelinha!! Hoje, eu até penso que ela era americana demais: uma estrela branca, cheia estrelinhas menores pintadas de vermelho e azul. Mas era tão bom montar nela!! Meu irmão tinha um bote, cheio de indiozinhos... mas ele era laranja, eu nunca gostei de laranja.



Eu gostava dessa bóia de estrelinha porque ela não apertava meu braço... eu ficava dentro dela e não sentia medo de afundar.


Hoje, eu não tenho nenhuma bóia ou estrela que me faça sentir segura em não afundar.


Enquanto eu rodopiava na piscina, na sala tocava Chico, Vinícius, Elis e todos os outros grandes músicos que aprendi a cortejar. Eu tinha a fita dos saltimbancos e quando ouvia: "au au au, ia ió, miau miau miau, có có ró có" já saía pulando pela casa! "Nós gatos já nascemos pobresss, porém, já nascemoss livress"... quantas saudades!!


Hoje, a fita deve estar perdida em algum fundo de gaveta, empilhada, esquecida... inútil.


Depois do almoço e da sesta deles, um mundo de brincadeiras me esperava. Eu gostava muito de brincar de profissões: vendia roupas, era farmacêutica, caixa de supermercado, garçonete. Garçonete era a minha preferida... se pudesse, ficaria servindo eles o tempo todo.


Hoje, não admito servir a mim mesma.


Geralmente, a gente ia para a pracinha, ali perto de casa mesmo. Andava com a minha bicicleta azul, com rodinhas brancas atrás; eu ainda tinha medo de cair.

O medo durou pouco e logo eu já andava sobre duas rodas. Hoje, tenho medo de cair.


No meio de todos esses sorrisos, havia as brigas com meu irmão, que deixavam tudo mais infante e colorido. Havia os "Comandos em ação", as cabaninhas, o trenó feito de colchão para escorregar pelas escadas e, é claro, os sorvetes. O besta era tão tímido que, na praia, eu, menorzinha de tudo, é que tinha de pedir os picolés para o sorveteiro ou ligar para o disk-lanches.


Eu gostava muito da sacada e da rede. Ficar olhando a lua e as estrelas pela luneta, na sacada, à noite, e depois deitar na rede, não tem preço. Quando transformaram a sacada em escritório, eu tive vontade de chorar... mas era só uma sacada. Quando eu cresci e não cabia mais na bóia, eu tive vontade de chorar, mas era só uma bóia. Quando tudo acabou, eu tive vontade de chorar... mas não pude, não tinha mais idade para chorar. E, hoje, também não me permitem chorar.

Depois de tudo isso, às vezes tinha o sítio ou a casa da vovó nésia.


Eu confesso que eu gostava mais da casa materna.


Na casa do vovô Aires, tinha bala de todos os tipos, tinha música clássica (apesar da vovó assistir ao programa do Sílvio Santos) e um quintal enorrrmeee, cheio de árvores, frutas e mistérios.
E tinha a URBA também. Eu e ele vivíamos pulando o muro e inventando facetas como Indiana Jones. Também tinha o Mercedez, que eu adoravaaa fingir que dirigia e a mecânica do Tio, que eu achava meio sombria.

Mas a casa da vovó nésia era diferente.

Eu consigo me lembrar, depois de dez anos ou mais, do cheiro do sofá, do tecido da cortina, do ladrilho gelado, da mesa de pedra no centro da sala, da roupa do vovô quando eu abraçava ele, da cadeira de estofado colorido da cozinha, do gosto do arroz dela, da água do filtro, do cheiro de arruda quando ela me benzia, do brinco que ela usava, da pele flácida nos braços e no pescoço, do regadorzinho vermelho, do cheiro de remédio no quarto do vovô, da edícula que vivia trancada e de quando eu fantasiava existir monstros ali. Eu poderia descrever a casa, eles, a comida e os momentos com todos os detalhes possíveis. Hoje, tudo isso ainda mora em mim, vive. E eu não pretendo esquecer.


Quando eu chegava, tinha um portãozinho baixo, azul-claro, e a gente logo ia entrando. Já de cara, encontrava a escada - que eu adorava escorregar pelo corrimão. Antes de subir, do lado esquerdo, tinha uma mini piscininha, um laguinho que sempre ficava vazio e eu nunca entendi o porquê. Mas sempre havia uma piscina ao redor!


A porta tinha umas grades entrelaçadas, era branca e era de vidro também. Tinha uma parte de vidro que abria entre as grades. O piso era de madeira e fazia barulho se alguém usasse salto alto.

Os sofás eram marrons, algo parecido com couro e as almofadas eram um pouco ásperas, com desenhos meio alaranjados e amarelados. Tinha cheiro de coisa antiga.


O telefone fazia um barulho engraçado e era cinza, daqueles de ter que girar. A mesinha do centro, era branca e de pedra, geladaaa... eu sempre fazia a lição de casa ali. Tinha uma T.v. e, em cima dela, alguns porta-retratos: meu priminho Vinícius e meu primo Fábio, com meu irmão no colo, se não me falha a memória. Eu gostava da T.v., mas não por ela. Meu avô, sempre quando eu ia visitá-lo, deixava uma balinha ou um chiclé escondidos atrás do porta-retrato, em cima da T.v. Ele me chamava de "Chica" e pedia para eu procurar um presentinho... e eu sempre encontrava. Como eu adoro bala chita de abacaxi!!


O banheiro era todo branco e tinha almofadinha na privada! Eu adorava aquilo. Sempre media a qualidade dos restaurantes pelo banheiro... e quando tinha almofadinha... era diferente!


O gostoso da cozinha era o arroz. Quantas e quantas vezes eu chegava e ia direto para a geladeira comer arroz gelado da vovó nésia? Tinha também uma dispensa... que eu não gostava muito, era apertada. E logo em seguida tinha o escritório do vovô.


Ele vivia consertando e construindo coisas. Tinha livros e papéis e gavetas e armários. Mas o mais legal de tudo era o palhacinho que ele construiu para mim e para o meu irmão. Era uma caixinha de madeira, com cara de palhaço e, bastava você apertar um botão, que o nariz do palhaço se acendia. Ali também era o local da vovó brincar de saci no escuro. Eu morria de medo quando ela colocava o fósforo dentro da boca, entre os dentes e imitava o saci.


Depois tinha a área de serviço e o quintal. Na área havia uma mesa de madeira, velha e meio úmida. Nessa mesa ela me sentava e, com um galhinho de arruda, me benzia. Eu não entendia bulhufas do que ela dizia baixinho e nem sabia por que ela fechava os olhos. No fundo, eu achava engraçado, mas gostava do cheirinho. Lembro da textura, das rachaduras da mesa... eu me sentia bem.

Logo depois da benzedeira, tinha o quintal, cheio de frutas e coisas para se fazer e brincar. Meu avô tinha uma espécie de oficinazinha ali, uma pequena marcenaria. E eu tinha uma lousinha, um regador vermelho e um velotrol. Também tinha um corredor por ali, meio estranho, que ia dar na garagem... era onde ficavam os botijões de gás. Era legal para brincar de esconde-esconde.

Hoje, a casa não existe mais, nem as pessoas que nela viviam.


Hoje, eu nem moro mais por lá.

Mas só eu sei como é maravilhoso não esquecer isso.

Só eu sei qual o gosto do arroz, o cheiro do sofá, a maciez da cortina. E isso, ninguém pode me tirar.

Não me permitem chorar, não me permitem cair, afundar. Não me permitem ser eu mesma.
Mas enquanto eu tiver memória, olfato, audição, visão e tato para viver, enquanto eu puder guardar tudo o que vivi dentro de mim, eu me permitirei.

Hoje, só hoje, eu quero ser Milena.