Coração aos farrapos, contraído até o limite, com medo de bater.
Estômago cansado de ser eu, que queres?
Náusea de tudo e de toda a gente, ponha para fora aquilo que não te agrada.
Lá fora, outros rostos, mais ácidos, me embrulham.
E o meu intestino continua como a minha vida: só funciona de vez em quando...
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Lisbon Revisited (1926) - Fernando Pessoa
Lisbon revisited
(1926)
Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui... Eu?
Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver... Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir... Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...
(1926)
Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui... Eu?
Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver... Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir... Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...
Discurso de Hitchens sobre a Igreja Católica
http://richarddawkins.net/videos/642262-hitchens-on-the-catholic-church
Como não te sonhar?
Como não te sonhar? Como não te sonhar?
Senhor das Horas que passam, Lord das águas estagnadas
e das algas mortas,
Deus Tutelar dos desertos abertos e das paisagens negras de rochedos estéreis - Livra-me da minha mocidade.
Consolador dos que não têm consolação, Lágrima dos que nunca choram, Hora que nunca soa - Livra-me da alegria e da felicidade.
Ópio de todos os silêncios, Lira para não se tanger, Vitral de lonjura e de abandono - faze com que eu seja odiada pelas mulheres e escarnecida pelos homens.
Címbalo da Extrema-Unção, Carícia sem gesto, Pomba morta à sombra, Óleo de horas passadas a sonhar - Livra-me da religião, porque é suave; e da descrença porque é forte.
Lírio fanando à tarde, Cofre de rosas murchas, silêncio entre prece e prece - Enche-me de nojo de viver, de ódio de ser são, de desprezo por ser jovem.
Torna-me útil e estéril, ó Acolhedor de todos os sonhos vagos; faze-me pura sem razão para o ser, e falsa sem amor a sê-lo.
Ó Água Corrente das tristezas vividas; que a minha boca seja uma paisagem de gelos, os meus olhos dois lagos mortos, os meus gestos um esfolhar lento de árvores velhas -Ó Ladainha de Desassossegos,
Ó Missa de cansaços, Ó Ascensão!
Que pena eu ter de rezar (não que eu reze) como um homem, e não te querer como uma mulher, e não te poder erguer os olhos do meu sonho como Aurora-Ao-Contrário do sexo irreal dos anjos que nunca entraram no céu.
Rezo a ti, meu amor, porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amado, nem te ergo ante mim como santo. Que os teus atos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação.
Como não te adorar, se só tu és adorável? Como não te amar se só tu és digno de amor?
Quem sabe se sonhando-te eu não te crio, real noutra realidade; se não serás meu ali, num outro e puro mundo, onde sem corpo tátil nos amemos, com outro jeito de abraços e outras atitudes essenciais de posse?
Quem sabe mesmo se não existias já e não te criei, te vi apenas, com outra visão, interior e pura, num outro e perfeito mundo?
Quem sabe se o meu sonhar-te não foi o encontrar-te simplesmente, se o meu amar-te não foi o pensar-te em ti, se o meu desprezo pela carne e o meu nojo pelo amor não foram a obscura ânsia com que, ignorando-te, te esperava e a vaga aspiração com que, desconhecendo-te, te queria?
Talvez sejas uma saudade minha, corpo de ausência, presença de distância...
Posso amar-te e adorar-te porque o meu amor não te possui e a minha adoração não te afasta.
Sê o Dia Eterno e que os meus poentes sejam raios do teu sol possuídos em ti.
Sê o Crepúsculo Invisível e que as minhas ânsias e desassossegos sejam as tintas da tua indecisão, as sombras da tua incerteza.
Sê a Noite Total, torna-te a Noite Única e que todo eu me perca e me esqueça em ti, e que os meus sonhos brilhem, estrelas, no teu corpo de distância e negação.
Cinza na tua lareira, importas que eu seja pó? Janela do teu quarto, que importa que eu seja espaço? Hora do teu horário, que importa que eu passe, se por ser tua ficarei, que eu morra se por ser tua não morrerei, que eu te perca se o perder-te é encontrar-te?
Realizador dos absurdos,
Seguidor de frases sem nexo.
Que o teu silêncio me embale, que a tua mão me adormeça,
que o teu mero-ser me acaricie e me amacie e me conforte, ó Heráldico do Além, Ó Imperial Ausência, Pai de todos os silêncios,
Lareira das almas que têm frio, Anjo da guarda dos abandonados, Paisagem Humana e irreal de triste e eterna Perfeição.
Não te esqueças de mim e não te rias.
Sou vil, Sou fraca, mas antes de qualquer coisa, SOU VOCÊ.
Milena Tarzia e Fernando Pessoa.
Senhor das Horas que passam, Lord das águas estagnadas
e das algas mortas,
Deus Tutelar dos desertos abertos e das paisagens negras de rochedos estéreis - Livra-me da minha mocidade.
Consolador dos que não têm consolação, Lágrima dos que nunca choram, Hora que nunca soa - Livra-me da alegria e da felicidade.
Ópio de todos os silêncios, Lira para não se tanger, Vitral de lonjura e de abandono - faze com que eu seja odiada pelas mulheres e escarnecida pelos homens.
Címbalo da Extrema-Unção, Carícia sem gesto, Pomba morta à sombra, Óleo de horas passadas a sonhar - Livra-me da religião, porque é suave; e da descrença porque é forte.
Lírio fanando à tarde, Cofre de rosas murchas, silêncio entre prece e prece - Enche-me de nojo de viver, de ódio de ser são, de desprezo por ser jovem.
Torna-me útil e estéril, ó Acolhedor de todos os sonhos vagos; faze-me pura sem razão para o ser, e falsa sem amor a sê-lo.
Ó Água Corrente das tristezas vividas; que a minha boca seja uma paisagem de gelos, os meus olhos dois lagos mortos, os meus gestos um esfolhar lento de árvores velhas -Ó Ladainha de Desassossegos,
Ó Missa de cansaços, Ó Ascensão!
Que pena eu ter de rezar (não que eu reze) como um homem, e não te querer como uma mulher, e não te poder erguer os olhos do meu sonho como Aurora-Ao-Contrário do sexo irreal dos anjos que nunca entraram no céu.
Rezo a ti, meu amor, porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amado, nem te ergo ante mim como santo. Que os teus atos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação.
Como não te adorar, se só tu és adorável? Como não te amar se só tu és digno de amor?
Quem sabe se sonhando-te eu não te crio, real noutra realidade; se não serás meu ali, num outro e puro mundo, onde sem corpo tátil nos amemos, com outro jeito de abraços e outras atitudes essenciais de posse?
Quem sabe mesmo se não existias já e não te criei, te vi apenas, com outra visão, interior e pura, num outro e perfeito mundo?
Quem sabe se o meu sonhar-te não foi o encontrar-te simplesmente, se o meu amar-te não foi o pensar-te em ti, se o meu desprezo pela carne e o meu nojo pelo amor não foram a obscura ânsia com que, ignorando-te, te esperava e a vaga aspiração com que, desconhecendo-te, te queria?
Talvez sejas uma saudade minha, corpo de ausência, presença de distância...
Posso amar-te e adorar-te porque o meu amor não te possui e a minha adoração não te afasta.
Sê o Dia Eterno e que os meus poentes sejam raios do teu sol possuídos em ti.
Sê o Crepúsculo Invisível e que as minhas ânsias e desassossegos sejam as tintas da tua indecisão, as sombras da tua incerteza.
Sê a Noite Total, torna-te a Noite Única e que todo eu me perca e me esqueça em ti, e que os meus sonhos brilhem, estrelas, no teu corpo de distância e negação.
Cinza na tua lareira, importas que eu seja pó? Janela do teu quarto, que importa que eu seja espaço? Hora do teu horário, que importa que eu passe, se por ser tua ficarei, que eu morra se por ser tua não morrerei, que eu te perca se o perder-te é encontrar-te?
Realizador dos absurdos,
Seguidor de frases sem nexo.
Que o teu silêncio me embale, que a tua mão me adormeça,
que o teu mero-ser me acaricie e me amacie e me conforte, ó Heráldico do Além, Ó Imperial Ausência, Pai de todos os silêncios,
Lareira das almas que têm frio, Anjo da guarda dos abandonados, Paisagem Humana e irreal de triste e eterna Perfeição.
Não te esqueças de mim e não te rias.
Sou vil, Sou fraca, mas antes de qualquer coisa, SOU VOCÊ.
Milena Tarzia e Fernando Pessoa.
Bah!

Se eu não fosse idiota, não perderia tanto tempo com coisas pequenas e sem valor, não deixaria a chance escapar, não toleraria outros da mesma espécie...
Se eu não fosse idiota, saberia amar e viver, não teria medo de arriscar e esperaria a sorte bater...
Se eu não fosse idiota, outros não me fariam de idiota, não teria cara de palhaça e saberia lidar com o azedume!
Se eu não fosse idiota, não passaria tardes inteiras lendo e escrevendo, pensando em coisas que ninguém pensa, esperando por aquilo que não existe...
Se eu não fosse idiota, não teria blog, não teria raiva, não teria porra nenhuma...
Porque, se eu não fosse idiota, eu não seria eu mesma, só seria meia Milena, de tão adequada à máscara...
Se eu não fosse idiota, não escreveria textos como esse; e isso seria muito bom!
terça-feira, 26 de julho de 2011

Ausência (Vinícius de Morais)
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
E no entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
E em minha voz, a tua voz.
Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou em minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei...Tu irás e encostarás tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu
porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado
E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas,
serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
E no entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
E em minha voz, a tua voz.
Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou em minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei...Tu irás e encostarás tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu
porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado
E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas,
serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
As cores da insanidade
Não compreendo o desejo que algumas pessoas têm de tudo querer enxergar. Parecem dispor de sensores ao invés de olhos, esses ciclopes modernos. Um passo em falso e lá estarão eles, para observar desvios e investigar deslizes. Não se utilizam do olhar senão como fonte de suspeita e punição; não suportam erros, não toleram delírios, não respeitam a ilusão. Possuem todos a postura ereta, tediosa e sorrateira de um Moisés, como se o diferente fosse necessariamente o indigno, como se o destoante fosse sempre um caluniador.Como ilustres detentores de tábuas de leis que julgam acertadas, nossos belos homens de pedra, estrábicos de alma e espírito, se insurgem dialeticamente contra os desarrazoados, como se não houvesse razão na loucura, como se não houvesse loucura na razão. Tentam, diariamente, ajustar os olhinhos míopes, corrigí-los com lentes que aproximam e domesticam, sem compreender que não é necessário enxergar detalhes impostos para fazer parte do manicômio da vida.
Insistem em querer adestrar os astigmáticos e os presbíopes, sob a alegação de que o que vêem não corresponde a realidade. Para tanto, são desferidos os eletrochoques da moral taciturna, as terapias do poder, o blá blá blá retórico. Munidos de uma vestimenta branca que encarcera, tentam tornar saudáveis os supostamente enfermos; por meio da ingestão de drogas que retificam a visão, querem que os míopes e daltônicos enxerguem certas cores, sem saber que se trata, no fundo, de mera perspectiva.
Deitados nas camas da incongruência, apáticos, já com o olhar em repouso que alcança o horizonte, nossos outros, divergentes, são esquecidos, perdem o seu caráter de sujeito e passam a ser tratados como objeto, numa relação alienado-alienista que, aí sim, beira o patológico.
Nos asilos, nossos anormais eram depositados aos montes, como se a exclusão e o afastamento resolvessem o "mal" atribuído aos transtornados. Atualmente, com o advento da Lei 10.216/01 e por intermédio de uma tímida luta antimanicomial, essas instituições sombrias estão se extinguindo gradativamente, sendo substituídas por hospitalecos de curta duração. Tampão no olho alheio é refresco...
O que esses deuses da norma - que tudo vêem - não compreendem é que também é possível enxergar sem cor, já que a cor não é um fenômeno físico, é interpretação. Se não fosse a luz, não haveria cor. Entretanto, a espécie humana possui o requinte, ainda que restrito, da visão noturna - estratégia em muitos casos necessária para a sobrevivência, tanto dos certos quanto dos errados.
Quem deseja o infravermelho ético e a amplitude máxima da visão panorâmica não percebe o limite natural que seu olho possui. Não percebe que sua capacidade de enxergar e identificar objetos, ou seja, de racionalizar, se restringe ao seu corpo, ao pequeno sujeito observador que é, num universo de representação e interesse.
No fundo, a cegueira contempla bem mais aqueles que não hesitam em ver, aprisionados que estão em suas próprias retinas dogmáticas. Mal sabem eles, parasitas oftalmológicos, que a origem daquilo que entendemos, hoje, por conhecimento, por clarividência, está justamente ligada ao delírio e à loucura.
Em seus hospícios particulares, dopados pela sensação de onividência/onisciência, os ciclopes da modernidade continuam a batalhar contra os incontroláveis titãs que devaneiam. Na mitologia grega, Cronos foi rei dos titãs. No nosso folclore discrepante, também. Somente o tempo é capaz de relativizar visões sem a corrente da cegueira histórica. Somente o tempo, primitiva invenção, pode derrotar as lentes impostoras da oposição e da distância.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
O Teatro da Sala de Espera
O desejo que tenho de que o mundo se realize perante os meus olhos agora, a vontade que sinto de ser espectadora e protagonista de minha própria vida, toda essa carga de possibilidade, imaginação e alheamento, todos os instantes de dúvida e não aceitação, de malícia e contradição, encenação e revolta, as tardes de tédio e insuficiência, tudo isso me insere numa classificação temporal e numa condição social que me retira de mim mesma e me joga nos confins do universo da juventude.Num determinado período histórico, fora estipulado que eu deveria me comportar do modo correspondente ao que se espera de mim. Criou-se, portanto, a idéia, inicialmente romântica, do jovem como símbolo do desregramento e da liberdade, de tal modo que até mesmo os mais velhos e sábios passassem a desejar uma fonte que os encaminhasse inversamente no tempo e lhes devolvesse aquela época de vigor físico e ingenuidade.
Mas os nossos jovens de hoje não têm nada de ingênuos. Muitos não conheceram os horrores de uma ditadura que tentava calar, mas tantos outros morrem diariamente em conflitos políticos, religiosos, nas periferias ou em grandes centros urbanos. Podem eles não ter maturidade suficiente para compreender certas peculiaridades, mas muitos possuem um espírito contemplativo e um poder de criação que não caberia aos que se aposentaram da vida. A sagacidade de alguns vence de longe o rótulo da inocência, quando o assunto é música, sexo e embriaguez. Mas a juventude não pode ser reduzida ao jovem alienado e individualista que permanece imóvel e que só quer saber de se ausentar.
A alienação, a estagnação, a paralisia que se infiltrou especialmente em nosso país não é prerrogativa dos jovens. A banalização de tudo que outrora teve valor, o descontentamento, o tédio e o mascaramento, condições que nos dizem, hoje, ser pós-moderna, não tem sua origem na juventude. É um processo que vem ocorrendo desde a revolução industrial, quando as crianças, os jovens e os adultos passaram a tomar efetivamente um lugar na atual sociedade.
A partir de então, o hábito e tédio assumiram em nossas vidas o papel fundamental: o tempo como esgotamento de si.
Acontece que os jovens buscam justamente esse esgotar-se, porque sabem do caráter inexorável do tempo, e essa ansiedade natural que nos é atribuída nada mais é que uma resposta física a esse turbilhão de emoções ao qual nos entregamos. Aliás, o físico é reflexo desse momento transitório, mas único.
Os jovens têm a feição límpida, a pele ainda lisa, e se esforçam para manter essa imagem. Há uma imagem representativa da juventude que invoca a beleza, o sublime e a exatidão, e, de fato, muitos se esforçam para tentar resguardá-la. A imagem do jovem, muitas vezes, não é a representação do que ele gostaria de ser. A aparência provocativa nem sempre reflete o que há de mais sincero, porque, acima de tudo, somos atores. Encenamos, todos os dias, o papel que nos fora concedido por um diretor que desconhecemos; ensaiamos todos os atos, em nossa espera teatral sem fim. Em nosso palco, não queremos envelhecer, não queremos crescer, amadurecer, porque ninguém quer se aproximar da morte.
Sabemos que, cedo ou tarde, teremos de optar pelo caminho profissional, pelas instituições que estão por aí em atacado, pelo homem ou mulher amados. Afinal de contas, se se é adolescente, tudo o que esperam de você é que você passe no vestibular. Se se é jovem, esperam que você se forme, trabalhe e se case. Quando se é adulto, cobram que o casal tenha, ao menos, filhos saudáveis e, posteriormente, netos, com quais se possa brincar aos domingos.
Todos os planos de sua vida já foram anteriormente traçados, cabendo a você, jovem, dar apenas os contornos finais, escolher entre alternativas já colocadas e ofertadas desde que nasceu.
Só que ser jovem é mais que escolher. Ser jovem é saber controlar a ávida sede de viver e de experimentar tudo quanto possível. Ser jovem é materializar a ética quantitativa de Camus, em que o maior número de experiências possíveis se reduz no verdadeiro significado da intensidade da vida. Porque a vida não é senão uma sucessão ininterrupta de esperas, que somente fora das pausas de nossa ansiedade infantil, se completa pela obtenção do objeto esperado. Porque só então atingimos a vontade que nos move, a nossa vontade de viver.
Ser jovem é ser o grande afirmador da vida, porque insaciáveis e insatisfeitos, queremos sempre mais. É o inesgotável desejo de vida do jovem que faz com que nossos velhos sábios sintam inveja. No fundo, há um ranço para com os jovens, pela observação saudosista e retroativa a que estão imersos. E é tão somente pela perspectiva da lembrança e da esperança que jovem é observado. Lembrança do que todos já foram e esperança do que se poderá ser.
É a nossa magnífica representação que nos torna a chave para o futuro e a saudade do passado. Nós jovens somos os únicos que mantêm regularmente a específica capacidade de regeneração, porque, quando somos, inventamos e, quando inventamos, somos.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
O Retorno
Olá futuros leitores,
Atendendo a pedidos, estou de volta com o blog!
Devido ao extenso conteúdo publicado secretamente ao longo dos últimos 5 anos, tive de retirar vários textos do ar, a fim de que fossem respeitadas a privacidade (não só a minha) e a origem dos textos. Muitos deles possuíam caráter acadêmico, motivo pelo qual foram, obviamente, retirados do site - sobraram dois, apenas. Outros, extremamente pessoais, foram excluídos para poupar o leitor das tragédias melosas em que, às vezes, nos inserimos.
Não sei com que regularidade pretendo escrever, não gosto de imposições. Tampouco desejo comentários ou avaliações aos textos. O blog fora criado para expor meus pensamentos tão somente a mim mesma. Sempre funcionou como uma espécie de "arquivo", de pasta de armazenamento. Hoje, por questões políticas e essencialmente egoístas, proponho exibir meus "vômitos" e indisciplina a todos aqueles que obtiverem a simples vontade de participar desse universo que ouso chamar de absurdo.
Para quem já conhece um bocado, os textos não possuem um tema determinado, e são absurdamente pessoais, marcados pela observação que faço do ambiente em vivo, além da rasa compreensão que procuro atigir acerca do que sinto. Na maioria das vezes, não me é possível transmutar em palavras aquilo que sinto... sentir é justamente não pensar! Por isso, muitas vezes minto, mas minto com fins artísticos e não desejo outra coisa senão criar.
Não sei com que intensidade os textos atingirão os olhos daqueles que estão por detrás da tela de cristal líquido, mas me proponho à difícil tarefa de evitar tagarelices.
No mais, acredito que possa ser oportuna a troca de informações acerca de livros, filmes, músicas e tudo o que mais aprouver. Ressalto que evitarei ao máximo citações e frases feitas, por respeito ao blog (rs), mas, de vez em quando, um poeminha ou outro até que cai bem!
É isso.
Sejam bem-vindos ao meu universo.
Podem entrar, mas não fechem a porta.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Os Idiotas
Somos de um tipo raro. Não temos direitos, nem deveres, ou quaisquer benefícios. Somos assistidos, diariamente, por nossos representantes, sem que precisemos agir ou questionar. Não sabemos por que estamos aqui ou para onde iremos. Só sabemos que estamos e que, um dia, iremos.
Contam-nos, desde pequenos, que estamos crescendo num ambiente repleto de democracia, liberdade regulamentada, respeito e mútua solidariedade. Restringem nossas mínimas escolhas, enchem os nossos ouvidos de esperança, caçoam de nossos gestos débeis, riem das nossas curtas memórias, embriagam-se com a nossa estupidez. Não nos permitem que sejamos nós mesmos – seria ridículo demais.
Somos esta leva de insuportáveis, de párias ambulantes, transeuntes indesejáveis. Comportamos a insustentável diferença que separa, a fisionomia que assusta, a ingenuidade digna de pena. Somos estrangeiros desde que nascemos; portadores de uma anomalia que jamais será curada. Somos os idiotas!
Mas, se acalmem! Não somos possuidores de uma idiotia qualquer. Somos raros, lembram-se? Resgatamos a pureza do príncipe Míchkin, de Dostoiévski, que sofria em razão de sua bondade excessiva. É que, no mundo, o homem bom é um idiota. Idiota no sentido antigo do termo: isolado, solitário. É um estrangeiro imbecil, que insiste em ser alheio ao homem de Estado.
Mas a nossa sagaz idiotia também nos remete à imagem do satírico Nelson Rodrigues, quando pensamos nos vários outros tipos de retardos. A gravidade da doença é tamanha, que já não há espaço para o discernimento. Há outros tipos de idiotas, todos iguais em ignorância e pretensão, que andam por aí em suas belas vestes e se esbarram no Planalto central, como se possuíssem a sobriedade necessária para comandar essa idiota que vos fala.
Esses parasitas condecorados, esses deficientes de caráter, nos sujeitam aos mais perversos tratamentos, sob o pretexto da cura e da normalidade.
Esse segundo tipo de idiota, o mais perigoso, eu diria, gerou, ainda, um terceiro tipo, o mais asqueroso: aqueles que, nas palavras do próprio Nelson, foram chamados de “falsos cretinos”. Eles são maioria e se escondem, com a habilidade sorrateira de uma toupeira, nas casas mais simples, nos ofícios mais comuns.
Acontece que o Brasil está repleto de “falsos cretinos”, desses idiotas que agem da mesma maneira que os idiotas de Estado, corrompendo, aos poucos, o que resta de belo na estupidez dos raros.
Estamos sendo invadidos por idiotas clandestinos e ninguém está imune às tolices.
Somos o país dos idiotas e não sabemos o que é felicidade.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Disputas e Observações

Descobri que numa semana de chuvas, a maior tempestade não molha ninguém. Não falo das mortes da região serrana do Rio, das enchentes em São Paulo ou do desespero em Santa Catarina. Falarei em nome de algumas regiões esquecidas, supostamente ricas e em desenvolvimento – pedacinhos de um Brasil distante e inofensivo, diariamente oprimido.
Quem compõe esses pedacinhos são pessoas, em sua maioria, franzinas, magrinhas, sem vida. Pessoas do povo, que apesar do frágil veículo físico, disparam olhares paralisantes, sem o glamour dos proprietários das cabeças de gado, sem a vulgaridade da senhorinha mercenária que se imagina dona da pequena cidade, sem a prepotência do único engenheiro ou do dono do bar. Esses olhares, notadamente desconfiados, imobilizam forasteiros suspeitos e investidores à paisana. Eles não te querem por perto, têm medo do desconhecido.
E foi nessa pátria nada minha que decidi sair em busca daquilo que todos, ou quase todos, saem um dia: um emprego. Com a mochila em mãos, fui atraída para uma região razoavelmente despovoada, na fronteira do Mato Grosso com o Pará, região já de floresta amazônica, de muitos rios e poucas estradas. É claro que não imaginei encontrar toda a acessibilidade e facilidade que o estado de São Paulo oferece, mas, o que me espantou não foram as estradas de terra ou a ausência de saneamento básico ou as chuvas torrenciais; tampouco a difusão das antenas de celulares ou a rede wireless por toda a parte, contrastando com os casebres mal cheirosos. O que me assustou foram esses olhares carentes, de animal faminto, de bichano irracional, de necessidade e esperança, que beiram a inocência.
Pequenos olhinhos míopes que foram por mim investigados e não me trouxeram emprego, mas outra fortuna. Foram esses homenzinhos quase cegos que me trouxeram de volta Kafka, no esplendor da oposição. Como não pensar n’O Processo ou n’O Castelo, diante daquele nítido estado de oposição dos contrários?
Não há compreensão ou comunicação para esses coitados magrelos. A lógica que envolve o que lhes é externo é incompreensível e, aos olhos cansados, não interessam acusações, comportam-se, de antemão, como culpados, como se o destino já lhes estivesse sido anteriormente traçado, com um fatalismo satisfeito e derradeiro. Havia ali todo um domínio unido à culpa que parece se resolver em cisão entre homem e autoridade. Há uma ruptura entre civilização e sujeito, e sujeição como moeda de troca para um suposto crescimento. Há uma desconcertante obediência servil e pouca ou nenhuma economia avançada, terra fértil e gente rica. O que vi não é novidade para ninguém: é o poder personificado em um vilarejo, o poder que cultiva a ignorância, a conveniência da cegueira e a mordaça dos fracos.
É nessa enorme esfera ou carapaça política que se esconde o monstro da tempestade que distancia e, no fundo, e ainda sem saber, são todos eles estrangeiros, peregrinos de uma terra de ninguém, usufrutuários de um pedaço de Brasil sozinho, sem pai nem mãe. Esses joguetes franzinos e solitários lutam para permanecer na memória do monstruoso aparato estatal, não em números, não em quantidade, mas em qualidade, qualidade unificadora. No contra-senso dessa disputa de xadrez entre poderes, fui apenas mais uma peça, devorada pelo rei. Mas ainda há a possibilidade da revanche; ainda há a estratégia do xeque-mate.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
A Lógica Silenciosa

Pudesse eu dissertar sobre verdades, e o mundo estaria repleto de pântanos mal cheirosos! O quente odor que agora se aproxima, há muito revela o meu faro desolador: é chegado o tempo das desclassificações!
Olho para janelas afora como quem fita o reflexo no espelho, e observo a deformidade de tristes rostos quase-humanos. Não pretendo hierarquizá-los ou distinguí-los em espécie. Apenas identifico e absorvo as incertezas de um ambiente fétido em que se encerram as sólidas carapaças de homens e besouros.
Pudesse eu falar sobre mentiras, e os besouros estariam sorridentes!
Mas no tempo das desclassificações o silêncio é deus...
Ah! Pudesse eu tagarelar sobre o silêncio e reclassificar insetos sem os simbolismos da eternidade!
O homem, esse escaravelho das sistematizações, comungaria de uma natureza jamais experimentada. E seriam tantos risos e tantos suicídios...
Quem dera que os élitros humanos fossem flexíveis... teriam o movimento cíclico dos primeiros sobrevôos.
Quem dera que os nossos vôos fossem noturnos, porque só então seria possível desfrutar da beleza e da claridade dos vaga-lumes de outrora.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Meu primeiro lango-lango
Podemos dizer, sem maiores receios, que a memória é um labirinto que quase sempre nos prega peças. É nesse corredor dos efeitos do tempo que agora me ponho a pensar sobre a tarde poente que é a infância. Quantas saudades das traquinagens, do pega-pega, dos aniversários, dos esconderijos, das historinhas! Explorávamos o mundo e o tempo não existia.
É com um carinho de criança chorosa que me lembro de cada brinquedo, cada objeto que delicadamente fora projetado para que eu pudesse crescer. Lembro-me dos patins, que me faziam cair; do escorregador da piscina, do pula-pirata e do Sr. Batata. Os anos oitenta foram verdadeiramente incríveis não só pelas transformações políticas, ambientais, musicais, mas pela produção dedicada ao público infantil e pela diversão sem fim a qual nos entregávamos.
De fato, a diversão não é característica exclusiva dos anos 80. Mas eu me lembro muito bem de um brinquedo, em especial, que promoveu a diversão de muitas crianças da época: o lango-lango.
Lango-lango era uma marionete de brinquedo que, nos comerciais, se propunha como amiga da natureza. Era como que um guardião e podia ser encontrado em diversas cores e formatos. Cada cor do fantoche representava um elemento da natureza. O meu lango-lango era verde, era o protetor das florestas. Em formato de monstrinho, o verde-lango me permitia acessar um mecanismo de controle interno que, ao ser acionado, fazia com que o monstrengo proferisse pequenos socos. Os golpes eram tão fraquinhos que mal podiam ser sentidos. No fundo, o verde-lango era um brinquedo sutil e delicado, incapaz de disseminar o mal.
Saudosista e embriagada pela nostalgia de anos tão saudáveis, observo que em 2010 a escolha de algumas crianças ainda recai sobre langos-langos da vida. Temos um exemplo vivo em Bauru que está longe de ser um monstro, mas que, como guardião, pouco a pouco se deixa controlar por cruéis crianças supostamente legisladoras. Tais crianças, nada inocentes, na ânsia de dominar e destruir um brinquedo que nos proporciona tanto diversão quanto segurança, com suas sujas mãozinhas assumem o controle interno do jovem fantoche que, indefensável, consente em lutar contra o nada.
No ato risível de sua solitária luta, o executivo brinquedo tende a ser esquecido. Seria maravilhoso pensar num pozinho mágico que transformasse o boneco de borracha em efetivo guardião, mas não penso que essa transformação dependa de uma fictícia substância alheia. Cabe ao nosso querido representante lango-lango retribuir o carinho das bondosas crianças que o elegeram, acolheram e recolheram, com tanta estima, das sombrias prateleiras comerciais, e elaborar novos mecanismos de controle, que não mais o sujeite a crianças tão mal-educadas. Cabe ao nosso verde-lango abdicar das esmagadoras crianças e afastar-se dos velhos baús da amizade, para que não seja ele o próximo a ser trancado no baú.
Não se encontram mais langos-langos nas lojas; ele é um brinquedo raro e que ainda não fora esquecido. Se não me falha a memória, o lango-lango também chacoalhava a cabeça, para frente e para trás, como se concordasse com tudo, querendo cair no gosto das multidões. Entretanto, devemos lembrar que lango-lango não agradou a todos, e nem poderia. Lango-lango, o brinquedo, sabia que, apesar de anuir com a cabeça, haveria aqueles que por politicagem infantil, ou mera incompatibilidade, o desprezariam. Lango-lango, o representante-guardião, nada parece saber sobre antagonismos.
Nem todo mundo teve a oportunidade de crescer explorando a habilidade de um verde-lango, mas sabemos quem são as crianças que o querem esquecido, quem são as crianças que o querem explorado e quem são as crianças que o querem de volta aos lares.
Ah! Que saudades do meu primeiro lango-lango!
E não era azul...
Não desejava muito. Queria enxergar o pico do Jaraguá, alguns prédios, talvez um parque. Não era a altura que me impedia, era a atmosfera paulistana. Cinza não era somente a cor do céu; era a cor dos carros, dos fumantes, das janelas, das roupas, dos olhos, das árvores, das enchentes; era também a cor do tédio, do abandono, da solidão, do desespero e do fracasso. Em São Paulo, o odor era cinza, a velocidade e o metrô eram cinzas, a música era cinza e o corpo, aos poucos, virava cinza.
Reclamava do tom cinza e ouvia de volta: “ - mas você ainda não se acostumou à poluição de São Paulo?” Sejamos francos, eu não tinha do que me queixar. Vivia entre os acinzentados como uma negra medida, sempre a filtrar branquidões, sempre a expirar o que não me agradava. Não me acostumei nem ao cinza nem à cidade, e procurava colorir alguns cenários.
Maringá, ao contrário, era a terra dos pés vermelhos e a morada do verde. Mesmo com a frota intransigente de carros, eu podia desfrutar dos parques, dos mirantes, do céu estrelado, do sabor das cores fortes de um domingo à toa. Em Maringá, as folhas eram mais tenras, os bosques mais doces, o clima mais acolhedor e só a saudade era cinza.
De volta a Bauru, pus-me a fitar o grosso céu de fim de inverno e percebi que não era mais capaz de decifrá-lo. Um daltonismo se apoderava de mim, e o azul, a cor da vida, dava lugar ao branco opaco de delicadas neblinas. Não reconhecia o nublado e não distinguia cores. Da observação do mundo, do alto da minha janela, vejo a que distância estou daquilo que não consigo enxergar. A claridade me ofusca até o mais remoto pensamento. A aridez não me aponta caminhos.
Em Bauru, é o céu que me pede para cerrar as pálpebras, enquanto as árvores se insinuam como espantalhos e os carros lembram fantasmas errantes. É nessa cidade de gases quentes que a ebulição da vida tem se tornado um desafio, que o medo ronda não só as esquinas, mas todos os quarteirões, e que a angústia tornou-se o colírio dos adultos e das crianças. Numa estreita faixa cinza, verifico uma linha divisória no céu, que ora tende para o branco, ora para o negro. O azul fora esquecido ou intencionalmente dissimulado. Onde é que está o azul de Bauru? Em que bolso foi parar o nosso dia?
Dizem as más línguas que ele está aqui o tempo todo, e que eu é que preciso de óculos, podendo dispensar as daltônicas metáforas. Sem bolsos ou cartas na manga, longe dos requintes do que chamam hoje de literatura, bebo das tortuosas águas poluídas de um rio que não nasce em mim, revisito pinturas em tons pastéis, e deito à janela esperando pelo azul.
Sem lentes de aumento, cremando alguns conceitos restantes, em silêncio, aguardo o próximo instante de partida, a próxima cidade, ansiosa pela saudade cinza que ameaça o olhar, ansiosa pela fumaça cinza que ameaça a janela.
Reclamava do tom cinza e ouvia de volta: “ - mas você ainda não se acostumou à poluição de São Paulo?” Sejamos francos, eu não tinha do que me queixar. Vivia entre os acinzentados como uma negra medida, sempre a filtrar branquidões, sempre a expirar o que não me agradava. Não me acostumei nem ao cinza nem à cidade, e procurava colorir alguns cenários.
Maringá, ao contrário, era a terra dos pés vermelhos e a morada do verde. Mesmo com a frota intransigente de carros, eu podia desfrutar dos parques, dos mirantes, do céu estrelado, do sabor das cores fortes de um domingo à toa. Em Maringá, as folhas eram mais tenras, os bosques mais doces, o clima mais acolhedor e só a saudade era cinza.
De volta a Bauru, pus-me a fitar o grosso céu de fim de inverno e percebi que não era mais capaz de decifrá-lo. Um daltonismo se apoderava de mim, e o azul, a cor da vida, dava lugar ao branco opaco de delicadas neblinas. Não reconhecia o nublado e não distinguia cores. Da observação do mundo, do alto da minha janela, vejo a que distância estou daquilo que não consigo enxergar. A claridade me ofusca até o mais remoto pensamento. A aridez não me aponta caminhos.
Em Bauru, é o céu que me pede para cerrar as pálpebras, enquanto as árvores se insinuam como espantalhos e os carros lembram fantasmas errantes. É nessa cidade de gases quentes que a ebulição da vida tem se tornado um desafio, que o medo ronda não só as esquinas, mas todos os quarteirões, e que a angústia tornou-se o colírio dos adultos e das crianças. Numa estreita faixa cinza, verifico uma linha divisória no céu, que ora tende para o branco, ora para o negro. O azul fora esquecido ou intencionalmente dissimulado. Onde é que está o azul de Bauru? Em que bolso foi parar o nosso dia?
Dizem as más línguas que ele está aqui o tempo todo, e que eu é que preciso de óculos, podendo dispensar as daltônicas metáforas. Sem bolsos ou cartas na manga, longe dos requintes do que chamam hoje de literatura, bebo das tortuosas águas poluídas de um rio que não nasce em mim, revisito pinturas em tons pastéis, e deito à janela esperando pelo azul.
Sem lentes de aumento, cremando alguns conceitos restantes, em silêncio, aguardo o próximo instante de partida, a próxima cidade, ansiosa pela saudade cinza que ameaça o olhar, ansiosa pela fumaça cinza que ameaça a janela.
E não era azul...
Não desejava muito. Queria enxergar o pico do Jaraguá, alguns prédios, talvez um parque. Não era a altura que me impedia, era a atmosfera paulistana. Cinza não era somente a cor do céu; era a cor dos carros, dos fumantes, das janelas, das roupas, dos olhos, das árvores, das enchentes; era também a cor do tédio, do abandono, da solidão, do desespero e do fracasso. Em São Paulo, o odor era cinza, a velocidade e o metrô eram cinzas, a música era cinza e o corpo, aos poucos, virava cinza.
Reclamava do tom cinza e ouvia de volta: “ - mas você ainda não se acostumou à poluição de São Paulo?” Sejamos francos, eu não tinha do que me queixar. Vivia entre os acinzentados como uma negra medida, sempre a filtrar branquidões, sempre a expirar o que não me agradava. Não me acostumei nem ao cinza nem à cidade, e procurava colorir alguns cenários.
Maringá, ao contrário, era a terra dos pés vermelhos e a morada do verde. Mesmo com a frota intransigente de carros, eu podia desfrutar dos parques, dos mirantes, do céu estrelado, do sabor das cores fortes de um domingo à toa. Em Maringá, as folhas eram mais tenras, os bosques mais doces, o clima mais acolhedor e só a saudade era cinza.
De volta a Bauru, pus-me a fitar o grosso céu de fim de inverno e percebi que não era mais capaz de decifrá-lo. Um daltonismo se apoderava de mim, e o azul, a cor da vida, dava lugar ao branco opaco de delicadas neblinas. Não reconhecia o nublado e não distinguia cores. Da observação do mundo, do alto da minha janela, vejo a que distância estou daquilo que não consigo enxergar. A claridade me ofusca até o mais remoto pensamento. A aridez não me aponta caminhos.
Em Bauru, é o céu que me pede para cerrar as pálpebras, enquanto as árvores se insinuam como espantalhos e os carros lembram fantasmas errantes. É nessa cidade de gases quentes que a ebulição da vida tem se tornado um desafio, que o medo ronda não só as esquinas, mas todos os quarteirões, e que a angústia tornou-se o colírio dos adultos e das crianças. Numa estreita faixa cinza, verifico uma linha divisória no céu, que ora tende para o branco, ora para o negro. O azul fora esquecido ou intencionalmente dissimulado. Onde é que está o azul de Bauru? Em que bolso foi parar o nosso dia?
Dizem as más línguas que ele está aqui o tempo todo, e que eu é que preciso de óculos, podendo dispensar as daltônicas metáforas. Sem bolsos ou cartas na manga, longe dos requintes do que chamam hoje de literatura, bebo das tortuosas águas poluídas de um rio que não nasce em mim, revisito pinturas em tons pastéis, e deito à janela esperando pelo azul.
Sem lentes de aumento, cremando alguns conceitos restantes, em silêncio, aguardo o próximo instante de partida, a próxima cidade, ansiosa pela saudade cinza que ameaça o olhar, ansiosa pela fumaça cinza que ameaça a janela.
Reclamava do tom cinza e ouvia de volta: “ - mas você ainda não se acostumou à poluição de São Paulo?” Sejamos francos, eu não tinha do que me queixar. Vivia entre os acinzentados como uma negra medida, sempre a filtrar branquidões, sempre a expirar o que não me agradava. Não me acostumei nem ao cinza nem à cidade, e procurava colorir alguns cenários.
Maringá, ao contrário, era a terra dos pés vermelhos e a morada do verde. Mesmo com a frota intransigente de carros, eu podia desfrutar dos parques, dos mirantes, do céu estrelado, do sabor das cores fortes de um domingo à toa. Em Maringá, as folhas eram mais tenras, os bosques mais doces, o clima mais acolhedor e só a saudade era cinza.
De volta a Bauru, pus-me a fitar o grosso céu de fim de inverno e percebi que não era mais capaz de decifrá-lo. Um daltonismo se apoderava de mim, e o azul, a cor da vida, dava lugar ao branco opaco de delicadas neblinas. Não reconhecia o nublado e não distinguia cores. Da observação do mundo, do alto da minha janela, vejo a que distância estou daquilo que não consigo enxergar. A claridade me ofusca até o mais remoto pensamento. A aridez não me aponta caminhos.
Em Bauru, é o céu que me pede para cerrar as pálpebras, enquanto as árvores se insinuam como espantalhos e os carros lembram fantasmas errantes. É nessa cidade de gases quentes que a ebulição da vida tem se tornado um desafio, que o medo ronda não só as esquinas, mas todos os quarteirões, e que a angústia tornou-se o colírio dos adultos e das crianças. Numa estreita faixa cinza, verifico uma linha divisória no céu, que ora tende para o branco, ora para o negro. O azul fora esquecido ou intencionalmente dissimulado. Onde é que está o azul de Bauru? Em que bolso foi parar o nosso dia?
Dizem as más línguas que ele está aqui o tempo todo, e que eu é que preciso de óculos, podendo dispensar as daltônicas metáforas. Sem bolsos ou cartas na manga, longe dos requintes do que chamam hoje de literatura, bebo das tortuosas águas poluídas de um rio que não nasce em mim, revisito pinturas em tons pastéis, e deito à janela esperando pelo azul.
Sem lentes de aumento, cremando alguns conceitos restantes, em silêncio, aguardo o próximo instante de partida, a próxima cidade, ansiosa pela saudade cinza que ameaça o olhar, ansiosa pela fumaça cinza que ameaça a janela.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Depósito da fé
Em época de eleição, o assunto é: ELEIÇÃO!
Em muito me agradam os desabafos alheios acerca do atual imobilismo-penetra das parcelas mais jovens do povão! No entanto, permitam-me falar não em nome dos jovens, nem em nome de uma geração, mas em nome dos meus 24 anos.
Também eu já votei em Luiz Inácio. Não na primeira vez em que se candidatou, mas na primeira vez em que pude votar, em 2002 - ano em que foi eleito (eu tinha, então, 16 anos e carregava uma bela visão romântica do mundo).
Hoje, já afastada daquele romantismo, surpreendo-me em pensar nessa continuidade tão desejada pela maior parte da população. Em conversas de botequim com os amigos (que não são da Filosofia), quase sempre ouço elogios escancarados ao sr.molusco; constatações de que ele fora (é) um dos melhores presidentes que esse país já teve - "Nunca antes na história desse país". Lembram-me os vovôs já crescidinhos da Era Vargas...
Pois é, por mais triste que eu possa ficar com essas impensadas atribuições, compreendo a posição deles e de nada me adianta tentar argumentar, porque, no fundo, além de Lula ser uma figura muito mais carismática que eu, nenhum deles quer deixar de crer. Lula entrou para o nosso cenário justamente sob esse enfoque, o da esperança. E, tal qual um Santo Papa, ele reina como o nosso novo pai dos pobres.
Se os brasileiros são bastardos e carentes de pai, eu não sei. Mas agora me parece que são carentes também de mãe, mãe que aguardam ajoelhados, na esperança de que ela vença a próxima batalha. Que batalha? Dilma sabe. Haveria alguém melhor para combater que a nossa guerrilheira? ou, repetindo a pergunta em tons mais apropriados: Haveria melhor adversário para combatermos?
Sabemos quem são os que votam em mamães armadas e quem são os nossos adversários.
E não me parece que o jovem necessariamente se encaixe nesse perfil de continuidade bélica. Quem vota em mamãe armada é o pobre bastardo, mas é também a engajada e jargônica elite intelectual brasileira, que em seus fiéis mandamentos não desiste do velho ideal apodrecido. É isso que me causa espanto: observar que essa camada que se julga inteligente parou no tempo e se recusa a repensar, a rever, a reavaliar, a criar e transformar. Não me parece que é só aos jovens que caberia a reclamação de imobilismo e a recomendação da aprendizagem.
Releio esses "gênios" brasileiros e o que encontro? O velho falatório de divisões e profecias! É disso que estou farta! Quando é que a repetição, no Brasil, deixará de ser a lei?
Outra coisa que me causa espanto é o espanto que eu causo quando digo que votarei nulo. Ora, se julgo que não há ninguém digno de me representar, por que eu votaria no menos pior, sabendo que ele ainda é PIOR?
E quando penso no maldito quociente eleitoral? Fico ainda mais P* da vida!
Saco cheio dos discursos dos pseudo-democratas (de esquerda!)! (rs)
Fica registrado o jovem desabafo,
Milena
Em muito me agradam os desabafos alheios acerca do atual imobilismo-penetra das parcelas mais jovens do povão! No entanto, permitam-me falar não em nome dos jovens, nem em nome de uma geração, mas em nome dos meus 24 anos.
Também eu já votei em Luiz Inácio. Não na primeira vez em que se candidatou, mas na primeira vez em que pude votar, em 2002 - ano em que foi eleito (eu tinha, então, 16 anos e carregava uma bela visão romântica do mundo).
Hoje, já afastada daquele romantismo, surpreendo-me em pensar nessa continuidade tão desejada pela maior parte da população. Em conversas de botequim com os amigos (que não são da Filosofia), quase sempre ouço elogios escancarados ao sr.molusco; constatações de que ele fora (é) um dos melhores presidentes que esse país já teve - "Nunca antes na história desse país". Lembram-me os vovôs já crescidinhos da Era Vargas...
Pois é, por mais triste que eu possa ficar com essas impensadas atribuições, compreendo a posição deles e de nada me adianta tentar argumentar, porque, no fundo, além de Lula ser uma figura muito mais carismática que eu, nenhum deles quer deixar de crer. Lula entrou para o nosso cenário justamente sob esse enfoque, o da esperança. E, tal qual um Santo Papa, ele reina como o nosso novo pai dos pobres.
Se os brasileiros são bastardos e carentes de pai, eu não sei. Mas agora me parece que são carentes também de mãe, mãe que aguardam ajoelhados, na esperança de que ela vença a próxima batalha. Que batalha? Dilma sabe. Haveria alguém melhor para combater que a nossa guerrilheira? ou, repetindo a pergunta em tons mais apropriados: Haveria melhor adversário para combatermos?
Sabemos quem são os que votam em mamães armadas e quem são os nossos adversários.
E não me parece que o jovem necessariamente se encaixe nesse perfil de continuidade bélica. Quem vota em mamãe armada é o pobre bastardo, mas é também a engajada e jargônica elite intelectual brasileira, que em seus fiéis mandamentos não desiste do velho ideal apodrecido. É isso que me causa espanto: observar que essa camada que se julga inteligente parou no tempo e se recusa a repensar, a rever, a reavaliar, a criar e transformar. Não me parece que é só aos jovens que caberia a reclamação de imobilismo e a recomendação da aprendizagem.
Releio esses "gênios" brasileiros e o que encontro? O velho falatório de divisões e profecias! É disso que estou farta! Quando é que a repetição, no Brasil, deixará de ser a lei?
Outra coisa que me causa espanto é o espanto que eu causo quando digo que votarei nulo. Ora, se julgo que não há ninguém digno de me representar, por que eu votaria no menos pior, sabendo que ele ainda é PIOR?
E quando penso no maldito quociente eleitoral? Fico ainda mais P* da vida!
Saco cheio dos discursos dos pseudo-democratas (de esquerda!)! (rs)
Fica registrado o jovem desabafo,
Milena
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Culinária do Amor
Sentada diante daqueles que não me vêem, aceno aos garçons do meu inconsciente para que me tragam minha bebida e prato prediletos. Eles não me ouvem. Mas ao ensaiar pequenos relatos de belas paisagens, começo a escutar, num ritmo quase ditirâmbico, os apelos dos meus tambores estomacais: tenho fome.
É certo que eu poderia optar por deixar meus amigos invisíveis e, então, saciar não só o meu desejo, mas a minha necessidade vital. Alimentar-se não é justamente esse continuar a ser? Mas optei por continuar a escrever, e eis-me aqui, tamborilando sobre o que nos dá água na boca e nos preenche deliciosamente.
Decididamente, falar de uma alimentação saudável é difícil, visto que muitas das nossas delícias nos fazem mal. Um doce bem açucarado ou uma carne bem sangrenta muitas vezes são preferíveis aos ásperos tecidos de uma folha verde - folha que também se alimenta por esses mesmos tecidos. Entretanto, é por meio da ingestão dos alimentos que nos são mais saborosos que pouco a pouco me atrevo a pensar em outros tipos de alimentos, mais ácidos, mas também vitais, que com seus poderosos nutrientes nos fornecem energia suficiente para o continuar.
A carne que agora mastigo lentamente me mantém em pé. Eu poderia dizer que é dessa mesma forma que o amor - esse alimento mal passado, sangrento, suculento - sustenta em mim a minha fome de viver. Ele, que com seus irresistíveis temperos picantes, insiste em perturbar o meu olfato e maltratar meu paladar! Ele, que com seu atrativo aspecto e forma e peso, me estufa em grandes pesadelos noturnos indigestos!
Mas eu estaria mentindo. Vejam, leitores que não me enxergam, eu não me oporia aos que dizem que o amor é um alimento, que é o placebo do insaciável, que é o motor vital dos mortais. Não me oporia em compará-lo, também, com a carne, ainda que humana, que desloca grupos inteiros de lobos famintos mundo afora, na ânsia do devorar.
O que eu reluto em aceitar, caro leitor invisível, é o entendimento do amor como um mero alimento, e não como energia, como força. Por sentir o estômago roncar tantas vezes é que me atrevo a ver o amor como um Poder. Não como um Deus que nos governa, mas como um Poder invisível que paira sobre alguns olhos cansados. O amor não é cego, nós é que somos – daí a invisibilidade do Poder. Nessa relação de comando, aceito o que me é imposto e sigo com o mínimo de urgência para poder sobreviver, de modo que o Poder, mais dia ou menos dia, acaba por se tornar o narcótico mais alucinógeno, do qual me torno usuária dependente.
Mas não sejamos relapsos. É a essa dependência de um Poder invisível que devemos nossa maior singularidade; ela é o que nos faz energicamente criadores, poeticamente humanos. Portanto, quando digo que amor é energia e Poder invisível, não há o intuito de tratá-lo como sobre-humano, mas como absolutamente e tão somente humano: tão humano e invisível quanto você, caro leitor: insuperavelmente fictício.
É certo que eu poderia optar por deixar meus amigos invisíveis e, então, saciar não só o meu desejo, mas a minha necessidade vital. Alimentar-se não é justamente esse continuar a ser? Mas optei por continuar a escrever, e eis-me aqui, tamborilando sobre o que nos dá água na boca e nos preenche deliciosamente.
Decididamente, falar de uma alimentação saudável é difícil, visto que muitas das nossas delícias nos fazem mal. Um doce bem açucarado ou uma carne bem sangrenta muitas vezes são preferíveis aos ásperos tecidos de uma folha verde - folha que também se alimenta por esses mesmos tecidos. Entretanto, é por meio da ingestão dos alimentos que nos são mais saborosos que pouco a pouco me atrevo a pensar em outros tipos de alimentos, mais ácidos, mas também vitais, que com seus poderosos nutrientes nos fornecem energia suficiente para o continuar.
A carne que agora mastigo lentamente me mantém em pé. Eu poderia dizer que é dessa mesma forma que o amor - esse alimento mal passado, sangrento, suculento - sustenta em mim a minha fome de viver. Ele, que com seus irresistíveis temperos picantes, insiste em perturbar o meu olfato e maltratar meu paladar! Ele, que com seu atrativo aspecto e forma e peso, me estufa em grandes pesadelos noturnos indigestos!
Mas eu estaria mentindo. Vejam, leitores que não me enxergam, eu não me oporia aos que dizem que o amor é um alimento, que é o placebo do insaciável, que é o motor vital dos mortais. Não me oporia em compará-lo, também, com a carne, ainda que humana, que desloca grupos inteiros de lobos famintos mundo afora, na ânsia do devorar.
O que eu reluto em aceitar, caro leitor invisível, é o entendimento do amor como um mero alimento, e não como energia, como força. Por sentir o estômago roncar tantas vezes é que me atrevo a ver o amor como um Poder. Não como um Deus que nos governa, mas como um Poder invisível que paira sobre alguns olhos cansados. O amor não é cego, nós é que somos – daí a invisibilidade do Poder. Nessa relação de comando, aceito o que me é imposto e sigo com o mínimo de urgência para poder sobreviver, de modo que o Poder, mais dia ou menos dia, acaba por se tornar o narcótico mais alucinógeno, do qual me torno usuária dependente.
Mas não sejamos relapsos. É a essa dependência de um Poder invisível que devemos nossa maior singularidade; ela é o que nos faz energicamente criadores, poeticamente humanos. Portanto, quando digo que amor é energia e Poder invisível, não há o intuito de tratá-lo como sobre-humano, mas como absolutamente e tão somente humano: tão humano e invisível quanto você, caro leitor: insuperavelmente fictício.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
O Fio da Verdade

Como uma aranha que nas aéreas pilastras constrói engenhosamente sua teia, alguns homens dedicam-se a liberar pequenos fios do saber, na esperança de produzir e alcançar o que batizam de verdade. Tais fios, finos num primeiro instante, aumentam de espessura a cada vez que eles se esquecem da multiplicidade do mundo e do caráter distintivo do particular, na tentativa de atrair presas para um universo de abstração e ordem.
Devemos levar em consideração tais construções humanas a que chamaremos de conceito, na medida em que as percebemos como proteção aracnídea. Ora, nos é necessário um aparato de saberes, ainda que genérico, para que possamos nos firmar e inaugurar nossa subsistência! Temos tal aparato para não sucumbir ante a ilusão. Entretanto, cabe perguntar se, edificadas sobre a fragilidade, nossas teias conceituais nos levariam necessariamente a uma verdade pura.
- O que é a verdade? - perguntariam alguns leitores. E dentre todas as possibilidades, eu poderia responder: - é a capacidade humana de produzir assimilações e dissolver imagens em conceitos; é a teia da aranha.
- E o que são os conceitos? – perguntariam outros. E mais uma vez, eu poderia responder: - são proteções humanas que nos sustentam contra o desconhecido; são os fios da teia da aranha.
Partindo do pressuposto de que minhas respostas não conduzem, aqui, necessariamente à verdade, e sem descartar a função vital de nossas arquiteturas do saber, sugiro a todos um exercício artístico: teçamos modelos inteligíveis, como aranhas férteis que somos, mas sem, no entanto, deixar escapar o instinto criador que se oculta por detrás desse emaranhado, e sem ter medo daquilo que não se entende por verdade.
As aranhas transcrevem um mundo ao erigirem teias de seda, mas a natureza nada sabe sobre conceitos. O homem, se tomado como um sujeito criador de verdades poderia erigir universos sem grades, livres do medo do devorar predatório, aceitando a vida em todos os seus aspectos, aceitando tanto a verdade quanto a mentira, deixando de ser apenas um sujeito conhecedor. Eu diria que o homem é justamente o animal conhecedor da mentira e da conveniência, mas não posso negar que ele é também aquele que melhor traduz essa relação estética entre o conhecimento e a vida.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Breves considerações acerca do conceito de autenticidade em Martin Heidegger
NOÇÕES GERAIS ACERCA DO CONCEITO DE AUTENTICIDADE EM HEIDEGGER:
Para que possamos esclarecer o que Heidegger compreende por “autenticidade”, nos é imprescindível, antes, identificar a noção de Ser em seu pensamento. Em Ser e Tempo, o autor germânico buscou reestruturar as bases da Filosofia moderna, de modo a transformar o próprio pensar, na medida em que tenta desviar o foco do pensamento para o denominado sentido do Ser. Não mais substantivar esse conteúdo de intensa vivacidade, mas torná-lo verbo: essa era a intenção primeira do referido acadêmico.
E de que maneira podemos pensar Ser como expressão verbal, dessubstantivada? Heidegger nos ensina que somente por meio de nossa existência. O existir é a condição fundamental que se une às outras bases do pensamento, e por isso é a nova estrutura do pensar trazida pelo autor; é mútua pertença entre Ser e o homem, porque o homem é a única criatura de Ser e do Ser. Esse Ser, indescritível verbo, se abre ao homem da mesma forma que o homem se abre ao Ser, e tudo isso simplesmente porque o homem é. As outras criaturas mundanas “estão-aí” e, enquanto todas as coisas “são”, somente o homem “é”: tal é o caráter da existência:
“O ser que existe é o homem. Só o homem existe. As pedras são, mas não existem. Os cavalos são, mas não existem. As árvores são, mas não existem. Os anjos são, mas não existem. Deus é, mas não existe.”
Nesse sentido, podemos constatar que somente o homem se dá conta de sua inexprimível existência, de seu Ser, e essa consciência é a sua condição. Ser, no entendimento heideggeriano, é compreender ser. O homem só é homem porque é verbo projetado no tempo (Ser) e porque o compreende que é.
Não por acaso, na referida obra, Heidegger substitui o substantivo “homem” por “ser-aí” (Dasein), para que de tal maneira fossem recriados os modos de ser do ente investigado. As preocupações do homem e da Filosofia deveriam se debruçar sobre o sentido do Ser, e não somente sobre o significado; para tanto, a existência fora concebida como nova base do pensamento e como condição primordial do Ser. Daí inserir-se Heidegger dentro de uma tradição de pensamento intitulada Existencialismo.
Ora, se o homem existe, ele existe somente em aberto, para fora no tempo, em constante transformação e sem qualquer determinação. Nota-se aqui, portanto, um resquício de herança nietzschiana, ao verificarmos que o homem de Heidegger é um “vir-a-ser”, é um projetar-se adiante lançado em meio a infinitas condições de possibilidades. Essas possibilidades são pouco a pouco esgotadas, na medida em que o homem vive e escolhe suas ações.
A frase de Sartre que bem define a doutrina existencialista: “a existência precede a existência”, renova as bases do pensamento tradicional ao se opor aos argumentos metafísicos de objetividade e determinação. Percebemos, então, que é o modo como vivemos que determina quem somos, e não uma suposta essência natural, inerente. Na verdade, os homens constroem uma essência somente por meio da existência, ao realizarem suas ações, ao viverem. É por isso que é a existência que constitui o Ser, o “Eu”.
Entretanto, o “Eu” pode se desviar de si mesmo, já que é um Ser em aberto, lançado ao mundo, em meio a tantos outros “Eus”. Esse modo de Ser, o “Eu”, é invisível enquanto entidade, mas se revela para a existência justamente por meio dos modos de Ser, que são as nossas escolhas, nossas ações: esse é o momento em que o “Eu” pode ir de encontro consigo mesmo ou desviar-se de seu caminho e perder-se.
Dessa forma, Heidegger compreende que toda a nossa experiência de existência ocorre por apropriação e desapropriação de si. O Ser é nossa propriedade e uma existência que se apropria de si mesma, que vai de encontro a si mesma é uma existência autêntica em seu modo de Ser. De modo contrário, uma existência que não se apropria de si mesma é uma existência inautêntica. Vejamos:
“Heidegger expressou em outros termos oposição - "Precisamente porque o Ser-aí (isto é, o homem) é essencialmente a sua possibilidade, esse ente pode, no seu ser, escolher- se e conquistar-se ou perder-se, ou seja, não se conquistar ou conquistar-se só aparentemente" (Sein und Zeit, \S>21, § 9). A possibilidade própria do Ser-aí é a morte: por isso, "O Ser-aí é autenticamente ele mesmo só no isolamento originário da decisão tácita e votada à angústia" (ibid., § 64). Por outro lado, a existência inautêntica é caracterizada pela tagarelice, pela curiosidade e pelo equívoco, que constituem o modo de ser cotidiano, impessoal do homem e representam, portanto, uma decadência do ser em relação a si mesmo (ibid., §38).”
O Ser somente o é no mundo. E o que é o “ser-no-mundo”? Heidegger põe em questão aquilo que, supostamente, já se sabe. Ele parte de uma prévia interpretação tradicional comum para se questionar e interrogar. Ser e compreender ser são as nossas condições humanas, mas a questão direciona-se para o “como Ser?”.
Somos lançados em um universo previamente constituído, anteriormente organizado; quando nascemos nos deparamos com os outros seres e toda a estruturação mundana e isso nos causa um profundo estranhamento. Tal inserção é mencionada por Heidegger como faticidade ou contingência. Entretanto, não é pelo fato de o mundo estar previamente organizado que haja qualquer tipo de pré-determinação: ele é um emaranhado de possibilidades sem fim. A faticidade nos é apresentada no momento de nosso nascimento e o que nos traz, de fato, a idéia de faticidade é a idéia de alteridade: os “outros” e suas interpretações.
“Os outros” são todos aqueles aos quais nós pertencemos, posto que nenhum homem, por condição ontológica, é, ou pode Ser, isolado. A coexistência é também uma condição humana, haja vista que não se pode Ser somente si mesmo. Nós somos “nós” e “os outros” simultaneamente, e o “Eu” pertence aos “outros”. Somos todos resultados dessa convivência que se finda com a morte.
Quando nos perguntamos quem somos, é o “quem” do cotidiano que nos responde. Nunca somos apenas “nós mesmos”, mas sempre com “os outros”. A esta questão “quem somos?” respondemos como “os outros” são. Nesse sentido, compreende-se que Ser como “os outros” são é não ser si mesmo, é a realização de uma impessoalidade, e esse é, precisamente, o Ser inautêntico.
A inautenticidade também é uma condição humana, permeada pela coexistência, de modo que só podemos compreendê-la pela via ontológica. Se formos inautênticos, não somos o nosso “Eu”; entretanto, não podemos Ser isoladamente. Isso significa dizer que para sermos, necessariamente temos de ser impróprios ou inautênticos.
É válido ressaltar que a impropriedade ou inautenticidade não é um valor negativo, mas apenas um rebaixamento. Tornamo-nos iguais aos “outros” porque nascemos com essa prévia condição ontológica. Abrimos mão de nós mesmos para sermos como “os outros”, perdemo-nos, diluímo-nos. O “Eu” diluído é a representação da inautenticidade: para Ser, somos condicionados a essa dinâmica da impropriedade. Daí constatarmos que a base da existência é a inautenticidade. Entretanto, tais momentos de perda são circulares; há períodos em que somos autênticos.
Em Ser e Tempo, Heidegger parece querer buscar um caminho para o Ser autêntico, definindo-o como aquele que se projeta. Se entendermos que a base da existência, do Ser, é a inautenticidade, a autenticidade é sempre uma projeção de si mesmo, um vir-a-ser, e, portanto, não é real, não se dá no presente: a propriedade só se dá pela possibilidade vindoura. É quando o “Eu” busca a si mesmo que ele se perde, porque o projeto é sempre futuro e não é realizado no plano imediato.
De fato, a autenticidade é tida por Heidegger como uma espécie de modificação da inautenticidade. O homem é inautêntico por condição, porque se encontra imerso num universo alheio; entretanto, a autenticidade pode alterar esse caráter contingente. A existência torna-se, enfim, um desdobramento de projetos, na medida em que realiza possibilidades e a morte é o encerramento completo dessas possibilidades. Essa descoberta, esse despertar para a apropriação da existência e essa percepção de que, afinal, o homem é um “ser-para-morte” geram a angústia nostálgica de uma autenticidade projetora.
É justamente nessa oscilação entre autenticidade/inautenticidade que se encontra a idéia heideggeriana do “poder-ser”. O homem só “é” nessa ambigüidade. Da mesma forma, só podemos observar a inautenticidade sob a luz da finitude, haja vista que só procuramos por nós mesmos, quando, lúcidos, tornamo-nos conscientes de nossa condição finita, mortal. É a morte que nos lembra de nossa condição de Ser e nos faz viver intensamente cada instante.
A)AUTENTICIDADE/INAUTENTICIDADE EM SER E TEMPO
No sentido mais amplo, entendemos autenticidade como a vida que se baseia numa apreciação exata da condição humana. O homem, designado como Dasein, ou “ser-aí”, está lançado num mundo que lhe é hostil e que deve, inevitavelmente, encarar.
Em Ser e Tempo, Heidegger distingue entre o que chama de dimensão ôntica e dimensão ontológica do Ser: “estar-no-meio-do-mundo-do-homem” e “estar-no-mundo”. Segundo Robert Olson , o objetivo dessa distinção consiste em esclarecer que, embora o homem esteja necessariamente presente no mundo e não possa retirar-se dele para alguma região do Ser abrigada ou contida em si mesma, que seja puramente sua, ele não está fadado a perder-se no mundo e baixar ao nível dos objetos materiais brutos.
Isso porque o homem não está literalmente “no” mundo – o “estar-no-mundo” é simplesmente uma presença em face do mundo. Portanto, o homem autêntico pode ser compreendido como aquele que reconhece a dualidade radical entre o humano e o não humano (animais, pedras, etc...), que reconhece que o homem deve viver no mundo e que “estar-no-mundo” não implica em “estar-no-meio-do-mundo”.
Mais tarde, Heidegger irá chamar a dimensão ôntica, isto é, o “estar-no-meio-do-mundo”, de estado de “queda”: duas denominações distintas para a inautenticidade. Esse estado inautêntico de queda possui um lado subjetivo e outro objetivo. O lado subjetivo é o que Heidegger chama de “Das Man”, ou o “Se”, “a Gente” ou “Diz-se” e representa uma pseudo-subjetividade, um “Eu” degradado, uma vez que se encontra diluído em outrem:
“A queda é um estado em que o indivíduo constantemente obedece a comandos e proibições cuja fonte é desconhecida e não identificável, e cuja justificação ele não se incomoda em inquirir.”
O lado objetivo da inautenticidade é todo o mundo artificial em que o homem é lançado, prévio, e transformado tecnologicamente. É o que Heidegger vai nos revelar como “mundo público”. Cumpre-nos ressaltar que não nos aprofundaremos nos conceitos de “mundo público” e “mundo próximo”, uma vez que foge à proposta da presente pesquisa. Todavia, esses dois lados do Ser (subjetivo/objetivo) nos são relevantes na medida em que nossas categorias básicas de existência (sentimento, entendimento, linguagem) tornam-se degradadas no estado de inautenticidade:
“Deve-se, porém, advertir que a distinção e a oposição entre autenticidade e inautenticidade não implicam nenhuma valorização preferencial. A inautenticidade faz parte da estrutura do ser tanto quanto a autenticidade. "O estado de decadência do Ser-aí não deve ser entendido como uma queda de um 'estado original' mais puro e mais alto. De algo semelhante não só não temos nenhuma experimentação ôntica, como nem mesmo o caminho de uma possível interpretação ontológica." (ibid., § 38)”
Para o filósofo alemão, a inautenticidade caracteriza-se como aquela existência cujas influências asfixiam o “Dasein” em seu mundo, retirando dele a responsabilidade por suas ações. Durante esse período, que é condição de Ser, somos sugados por um conjunto de hábitos e ansiedades que não nos pertence, que vêm de fora. Nossas condutas são determinadas por motivos frívolos e medos sem razão, ao passo que o “Das Man” controla e exige o que havia de profundo em nossos sentimentos.
Contudo, ao estado de queda resta-nos questionar: como é possível livrarmo-nos dessa condição de “estar-no-meio-do-mundo”? Heidegger nos responde: somente por meio de uma drástica tomada de consciência, por meio do reconhecimento de nossa condição humana de “Ser-para-morte”. Como “ser-no-mundo”, imerso na inautenticidade, o homem traz em si a capacidade, pela angústia, de deparar-se com a verdade essencial de sua existência, a condição de ser temporal. A temporalidade é revelada na mortalidade inevitável, uma condição intransponível na realidade da existência, contra a qual não é possível bulir as regras. É tal situação angustiante que traz ao homem a consciência da morte.
Ao despertarmos e termos ciência de que somos finitos, somos tomados por essa angústia dilacerante e reveladora, que nos mostra a dualidade radical entre o humano e o não humano e entre o “estar-no-mundo” e o “estar-no-meio-do-mundo”. Desse modo, o nível da consciência através do qual o homem tem acesso ao mundo é aquele que acolhe à voz do Ser e consente em ser o “pastor do Ser”.
Ocorre que em Ser e Tempo, parece-nos que Heidegger buscou definir o homem autêntico exclusivamente em termos de sua atitude para com a morte, definindo-o como aquele que foge ao cotidiano trivial, reconhecendo sua condição de mortal e encarando-a com honra e coragem. Há dois pontos que nos chama atenção na referida obra: a ciência de um fim último como caráter intensificador da vida e da individualidade e a morte como necessidade ontológica. Vejamos:
O reconhecimento da condição humana, à luz de uma perspectiva heideggeriana, culmina numa espécie de técnica por meio da qual o homem inautêntico alivia o medo da morte. Tal técnica consiste, essencialmente, em despersonalizar a morte, reduzindo-a a uma categoria abstrata e universal, a um fenômeno puramente biológico ou social, sem qualquer caráter espiritual.
Para ilustrar tal entendimento, Heidegger recorre ao escritor Tolstói, em A morte de Ivã Ilitch, mostrando-nos o “despedaçamento e colapso do Morre-se ”. Quando nos vemos obrigados a enfrentar essa verdade de morte, a vida presente é tomada por outro sentido, um sentido mais profundo que a simples trivialidade do passar dos dias, numa espécie de carpe diem tardio.
O outro ponto que nos interessa nos escritos heideggerianos é a distinção da morte como expressão de um fim último e invencível, que de modo algum pode ser superado. Há, portanto, uma espécie de crença de que a morte é uma necessidade do Ser e que, uma vez inevitável, pode ter seus efeitos mitigados por meio do reconhecimento desse caráter indelével e por meio da aceitação da angústia existencial que tal pensamento nos traz:
“Se, porém, numa decisão resoluta, abraçamos nossa finitude e assumimos ativamente nosso “ser-para-morte”, poderemos moderar esse terror muito mais eficazmente de que desejando a imortalidade pessoal.”
É que, para Heidegger, assumir a nossa condição finita significaria aliviar o terror original que a morte nos inspira e, mais que isso, consistiria numa comunhão com mundo de maneira a nos situar numa totalidade impossível em vida: na morte, somos a totalidade que não pudemos ser em vida. Entretanto, ainda vivos, podemos nos antecipar em direção à morte, reconhecendo-a como expressão necessária do Ser e adotando um ponto de vista sobre nós como totalidade.
B)O SUPOSTO JARGÃO
Entre os anos de 1962 e 1964, Theodor W. Adorno escreveu “O jargão da autenticidade”, obra que se insere como expressão maior de um contexto de inúmeras críticas voltadas ao pensamento existencialista e heideggeriano, principalmente. O fato é que, muitas vezes associadas à adesão nazista de Heidegger, as críticas que pairam sobre o cenário político e filosófico da época merecem, sob análise, certa dose de cautela, para que sejam evitadas maiores digressões.
Incongruências à parte, parece-nos que o que Adorno buscava, afinal, era desqualificar o discurso sobre o “ser-para-morte” heideggeriano intitulando-o como mero jargão sobre a problemática da autenticidade, de modo que se fizesse transmitir que, em pensadores de um período pós-guerra, tudo não passava de falatório lírico encobridor de questões sociais mais sérias, fruto de uma elite alemã e, muitas vezes, francesa, catastroficamente emergentes e frágeis no que concerne ao pensar filosófico:
"Provavelmente em nenhum lugar a sua filosofia, e tudo que com ela bóia até os esgotos da crendice alemã no Ser, será mais alérgica que nesse ponto.”
Negando ao pensamento heideggeriano qualquer mérito ou originalidade, Adorno prossegue em seu ostensivo intento, tratando-o como prestidigitação, ardil ou falsa erudição, num tom de absoluto descaso, ele confessa clara hostilidade quando nos fala sobre o “asco ao jargão”.
Ora, ocorre que a desconfiança quanto ao aparato intelectual nos é apontada para Adorno, e não para Heidegger. Mesmo recusando qualquer possibilidade de construção ética ou transformação de si por meio de uma postura que reconhece o entendimento heideggeriano acerca da inexorabilidade da morte, Adorno tenta nos convencer de que a novas abordagens científicas é que abrem caminho para uma possível superação.
Contudo, o que vemos nesse esmiuçado ressentimento desconstrutor é que nem mesmo a ciência como cura - e isso é o que nos parece crendice – poderia alterar a irremissibilidade da morte para o Dasein. Desconsiderando as dimensões ôntica e ontológica de Ser e Tempo, Adorno nos parece incapaz de notar que o conceito ontológico-existencial de morte que o livro persegue tem a ver, sobretudo, com uma possibilidade, da qual o Dasein, como ente compreensivo e capaz de projeções, não se pode ver livre. Trata-se, em suma, de uma intensa e admirável preocupação com a totalidade do Ser, pendente, digna de discussão acadêmica e séria reflexão.
Pretendemos, portanto, de forma breve e dentro dos limites possíveis, contestar com veemência a mencionada obra de Adorno, para que melhor se compreenda a idéia de autenticidade e, em especial, a noção heideggeriana de autenticidade.
O pretensioso texto de Adorno nos invoca a consentir em denunciar uma série de conjuntos de hábitos discursivos perniciosos que estavam em voga na época, mais ou menos em meados da década de 50, 60, mais precisamente sobre o termo “autenticidade”, utilizado pela primeira vez por Karl Jaspers. Com relação a origem e disseminação desse jargão, o filósofo da escola de Frankfurt parece crer que há uma espécie de conexão invisível, por meio da linguagem, entre ação e pensamento.
Destarte, não podemos dizer que a disseminação de um pensamento mais profundo e supostamente ameaçador se justifica como fruto de elitismo pessoal ou como estratégia de proteção ante o que se desconhece. Entretanto, é válido lembrar que quem nos encaminha ao universo ideológico marxista por meio de releituras e conceitos truncados não é Heidegger. De acordo com Edgar de Brito Lyra Netto, doutor e professor do departamento de Filosofia da PUC-RIO:
“(...) certa ojeriza "sociológica" a uma espécie de filisteísmo espiritual, mais preocupado com a essência do homem do que com sua dignidade coletiva e concreta. Melhor dizendo, a insistência numa abstrata essência do homem estaria permeada por um irracionalismo camuflador de anseios de proteção e dignidade, típicos de uma classe acostumada a privilégios, sob a capa de formidáveis verdades onto-antropológicas.”
Ao que nos parece, é interesse de Adorno, e não de Heidegger, recair sobre apropriações que confirmem um rebuscado modo de pensar. O irracionalismo desmedido e que supostamente afastaria o homem do campo da ação não nos conduziria ao reacionarismo, mas à ratificação de é que Adoro que detém a razão e saber “verdadeiros”. Bem se vê que a preocupação do autor não se reduzia apenas ao jargão lingüístico, mas ao receio de que certo tipo de pensamento, batizado de subjetivista, se propagasse.
Ousamos dizer que, quando Adorno nos fala de certa doutrina que “difama a objetividade como coisificação e, em segredo, fomenta o irracionalismo” , estaria, em verdade, sugerindo uma autodefesa que recolocasse os argumentos marxistas sobre qualquer diálogo com o “Eu”, descaracterizando a problemática existencial, ao alegar que haveria uma “via reacionária própria dos existencialistas” que não se pode sobrepor aos “verdadeiros” e “condizentes” padrões políticos e sociais.
Na presente pesquisa, não nos interessou analisar se Adorno possui ou não fundamentos para alcunhar aqueles pensadores de reacionários ou burgueses. O que propusemos brevemente fora contestar o trabalho adorniano, sem desmerecê-lo, de modo a concluir que o mesmo se trata de uma característica inversão de valores, típica dos frankfurtianos, filhos de Hegel, atentos à objetividade e à positividade instrumental da razão.
2. CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Já mencionamos que a proposta heideggeriana não se inclina a desvendar as desenvolturas de um mísero jargão lingüístico, tampouco a propagar o pedantismo pela comunidade alemã, na segunda metade do século passado. Da mesma forma, por meio da leitura e das citações selecionadas, constatamos que o conceito de autenticidade em Heidegger só é visualizado se discernimos o plano da morte, da angústia e da totalidade do Ser.
Entre dúvidas e evidências, questionamos como seria possível nos livrarmos da condição de inautenticidade ou, ao menos, abrandá-la. E tudo isso nos serviu de base para concluir que, em Heidegger, mais que um simples projetar-se humano, o caminho da busca pela autenticidade nos conduz ao universo da liberdade, mas de uma liberdade que só se perpetua no mundo. E se é, de fato, a existência que dá origem a essência, a liberdade é o cerne que define a problemática da autenticidade, porquanto a criação do essencial implica em liberdade e, por fim, em autenticidade. É a liberdade criadora que elege escolhas que caracterizam o homem como um Ser efetivo de possibilidades.
É por constituir-se exatamente como um Ser de liberdade e encontrar-se em um universo de faticidade que o homem é capaz de assumir, por si, a condição de projeto destinado à realização, isto é, que ele tem capacidade de, estando consciente de sua situação de abandonado a sua própria responsabilidade, guiar-se sob o ponto de vista da totalidade em meio ao mundo - lugar onde ele é chamado a ser projeto, construção de si mesmo. Desse modo, verificamos que cabe ao homem, como Ser livre, a decisão de dar à sua própria existência o sentido que melhor lhe convém.
Portanto, concluímos que o pensamento heideggeriano, na fuga de um niilismo avassalador outrora anunciado por Nietzsche, ao descartar estruturas de massificação, pode ser o verdadeiro propulsor que nos conduziria à construção de um sujeito autêntico na medida de suas projeções, único no mundo e plenamente capaz de edificar e rever seu modo de Ser e de pensar.
Se Heidegger ousaria dizer o mesmo, não sabemos. Mas em meio a tantas discussões hermenêuticas, ainda que fosse considerado um jargão vulgar, o conceito de autenticidade parece nos proporcionar mais projetos e ações que qualquer borrão sem sentido de uma objetividade que não convence.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Mestre Jou, São Paulo, 1982.
ADORNO, Theodor W. The Jargon of Authenticity. Routledge & Kegan Paul, Londres, 1973.
ARVON, Henri. A Filosofia Alemã: A Filosofia Existencialista. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978.
HEIDEGGER, Martin. Ser y Tiempo. Edición Electrónica, Escuela de Philosophia Universidad ARCIS, Santiago, 1988.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Vozes, Petrópolis, 1993.
HEIDEGGER, Martin. The way back into the ground of Metaphysics: publicado em Existencialismo: De Dostoevsky a Sartre, Meridian Books, Nova York, 1956.
NETTO, Edgar de Brito Lyra. Sobre o pensamento filosófico e sua sobrevivência no mundo técnico, PUC-RIO, Rio de Janeiro, 2003.
OLSON, Robert G. Introdução ao existencialismo. Brasiliense, São Paulo, 1970.
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um humanismo. Presença, Lisboa, 1984.
Para que possamos esclarecer o que Heidegger compreende por “autenticidade”, nos é imprescindível, antes, identificar a noção de Ser em seu pensamento. Em Ser e Tempo, o autor germânico buscou reestruturar as bases da Filosofia moderna, de modo a transformar o próprio pensar, na medida em que tenta desviar o foco do pensamento para o denominado sentido do Ser. Não mais substantivar esse conteúdo de intensa vivacidade, mas torná-lo verbo: essa era a intenção primeira do referido acadêmico.
E de que maneira podemos pensar Ser como expressão verbal, dessubstantivada? Heidegger nos ensina que somente por meio de nossa existência. O existir é a condição fundamental que se une às outras bases do pensamento, e por isso é a nova estrutura do pensar trazida pelo autor; é mútua pertença entre Ser e o homem, porque o homem é a única criatura de Ser e do Ser. Esse Ser, indescritível verbo, se abre ao homem da mesma forma que o homem se abre ao Ser, e tudo isso simplesmente porque o homem é. As outras criaturas mundanas “estão-aí” e, enquanto todas as coisas “são”, somente o homem “é”: tal é o caráter da existência:
“O ser que existe é o homem. Só o homem existe. As pedras são, mas não existem. Os cavalos são, mas não existem. As árvores são, mas não existem. Os anjos são, mas não existem. Deus é, mas não existe.”
Nesse sentido, podemos constatar que somente o homem se dá conta de sua inexprimível existência, de seu Ser, e essa consciência é a sua condição. Ser, no entendimento heideggeriano, é compreender ser. O homem só é homem porque é verbo projetado no tempo (Ser) e porque o compreende que é.
Não por acaso, na referida obra, Heidegger substitui o substantivo “homem” por “ser-aí” (Dasein), para que de tal maneira fossem recriados os modos de ser do ente investigado. As preocupações do homem e da Filosofia deveriam se debruçar sobre o sentido do Ser, e não somente sobre o significado; para tanto, a existência fora concebida como nova base do pensamento e como condição primordial do Ser. Daí inserir-se Heidegger dentro de uma tradição de pensamento intitulada Existencialismo.
Ora, se o homem existe, ele existe somente em aberto, para fora no tempo, em constante transformação e sem qualquer determinação. Nota-se aqui, portanto, um resquício de herança nietzschiana, ao verificarmos que o homem de Heidegger é um “vir-a-ser”, é um projetar-se adiante lançado em meio a infinitas condições de possibilidades. Essas possibilidades são pouco a pouco esgotadas, na medida em que o homem vive e escolhe suas ações.
A frase de Sartre que bem define a doutrina existencialista: “a existência precede a existência”, renova as bases do pensamento tradicional ao se opor aos argumentos metafísicos de objetividade e determinação. Percebemos, então, que é o modo como vivemos que determina quem somos, e não uma suposta essência natural, inerente. Na verdade, os homens constroem uma essência somente por meio da existência, ao realizarem suas ações, ao viverem. É por isso que é a existência que constitui o Ser, o “Eu”.
Entretanto, o “Eu” pode se desviar de si mesmo, já que é um Ser em aberto, lançado ao mundo, em meio a tantos outros “Eus”. Esse modo de Ser, o “Eu”, é invisível enquanto entidade, mas se revela para a existência justamente por meio dos modos de Ser, que são as nossas escolhas, nossas ações: esse é o momento em que o “Eu” pode ir de encontro consigo mesmo ou desviar-se de seu caminho e perder-se.
Dessa forma, Heidegger compreende que toda a nossa experiência de existência ocorre por apropriação e desapropriação de si. O Ser é nossa propriedade e uma existência que se apropria de si mesma, que vai de encontro a si mesma é uma existência autêntica em seu modo de Ser. De modo contrário, uma existência que não se apropria de si mesma é uma existência inautêntica. Vejamos:
“Heidegger expressou em outros termos oposição - "Precisamente porque o Ser-aí (isto é, o homem) é essencialmente a sua possibilidade, esse ente pode, no seu ser, escolher- se e conquistar-se ou perder-se, ou seja, não se conquistar ou conquistar-se só aparentemente" (Sein und Zeit, \S>21, § 9). A possibilidade própria do Ser-aí é a morte: por isso, "O Ser-aí é autenticamente ele mesmo só no isolamento originário da decisão tácita e votada à angústia" (ibid., § 64). Por outro lado, a existência inautêntica é caracterizada pela tagarelice, pela curiosidade e pelo equívoco, que constituem o modo de ser cotidiano, impessoal do homem e representam, portanto, uma decadência do ser em relação a si mesmo (ibid., §38).”
O Ser somente o é no mundo. E o que é o “ser-no-mundo”? Heidegger põe em questão aquilo que, supostamente, já se sabe. Ele parte de uma prévia interpretação tradicional comum para se questionar e interrogar. Ser e compreender ser são as nossas condições humanas, mas a questão direciona-se para o “como Ser?”.
Somos lançados em um universo previamente constituído, anteriormente organizado; quando nascemos nos deparamos com os outros seres e toda a estruturação mundana e isso nos causa um profundo estranhamento. Tal inserção é mencionada por Heidegger como faticidade ou contingência. Entretanto, não é pelo fato de o mundo estar previamente organizado que haja qualquer tipo de pré-determinação: ele é um emaranhado de possibilidades sem fim. A faticidade nos é apresentada no momento de nosso nascimento e o que nos traz, de fato, a idéia de faticidade é a idéia de alteridade: os “outros” e suas interpretações.
“Os outros” são todos aqueles aos quais nós pertencemos, posto que nenhum homem, por condição ontológica, é, ou pode Ser, isolado. A coexistência é também uma condição humana, haja vista que não se pode Ser somente si mesmo. Nós somos “nós” e “os outros” simultaneamente, e o “Eu” pertence aos “outros”. Somos todos resultados dessa convivência que se finda com a morte.
Quando nos perguntamos quem somos, é o “quem” do cotidiano que nos responde. Nunca somos apenas “nós mesmos”, mas sempre com “os outros”. A esta questão “quem somos?” respondemos como “os outros” são. Nesse sentido, compreende-se que Ser como “os outros” são é não ser si mesmo, é a realização de uma impessoalidade, e esse é, precisamente, o Ser inautêntico.
A inautenticidade também é uma condição humana, permeada pela coexistência, de modo que só podemos compreendê-la pela via ontológica. Se formos inautênticos, não somos o nosso “Eu”; entretanto, não podemos Ser isoladamente. Isso significa dizer que para sermos, necessariamente temos de ser impróprios ou inautênticos.
É válido ressaltar que a impropriedade ou inautenticidade não é um valor negativo, mas apenas um rebaixamento. Tornamo-nos iguais aos “outros” porque nascemos com essa prévia condição ontológica. Abrimos mão de nós mesmos para sermos como “os outros”, perdemo-nos, diluímo-nos. O “Eu” diluído é a representação da inautenticidade: para Ser, somos condicionados a essa dinâmica da impropriedade. Daí constatarmos que a base da existência é a inautenticidade. Entretanto, tais momentos de perda são circulares; há períodos em que somos autênticos.
Em Ser e Tempo, Heidegger parece querer buscar um caminho para o Ser autêntico, definindo-o como aquele que se projeta. Se entendermos que a base da existência, do Ser, é a inautenticidade, a autenticidade é sempre uma projeção de si mesmo, um vir-a-ser, e, portanto, não é real, não se dá no presente: a propriedade só se dá pela possibilidade vindoura. É quando o “Eu” busca a si mesmo que ele se perde, porque o projeto é sempre futuro e não é realizado no plano imediato.
De fato, a autenticidade é tida por Heidegger como uma espécie de modificação da inautenticidade. O homem é inautêntico por condição, porque se encontra imerso num universo alheio; entretanto, a autenticidade pode alterar esse caráter contingente. A existência torna-se, enfim, um desdobramento de projetos, na medida em que realiza possibilidades e a morte é o encerramento completo dessas possibilidades. Essa descoberta, esse despertar para a apropriação da existência e essa percepção de que, afinal, o homem é um “ser-para-morte” geram a angústia nostálgica de uma autenticidade projetora.
É justamente nessa oscilação entre autenticidade/inautenticidade que se encontra a idéia heideggeriana do “poder-ser”. O homem só “é” nessa ambigüidade. Da mesma forma, só podemos observar a inautenticidade sob a luz da finitude, haja vista que só procuramos por nós mesmos, quando, lúcidos, tornamo-nos conscientes de nossa condição finita, mortal. É a morte que nos lembra de nossa condição de Ser e nos faz viver intensamente cada instante.
A)AUTENTICIDADE/INAUTENTICIDADE EM SER E TEMPO
No sentido mais amplo, entendemos autenticidade como a vida que se baseia numa apreciação exata da condição humana. O homem, designado como Dasein, ou “ser-aí”, está lançado num mundo que lhe é hostil e que deve, inevitavelmente, encarar.
Em Ser e Tempo, Heidegger distingue entre o que chama de dimensão ôntica e dimensão ontológica do Ser: “estar-no-meio-do-mundo-do-homem” e “estar-no-mundo”. Segundo Robert Olson , o objetivo dessa distinção consiste em esclarecer que, embora o homem esteja necessariamente presente no mundo e não possa retirar-se dele para alguma região do Ser abrigada ou contida em si mesma, que seja puramente sua, ele não está fadado a perder-se no mundo e baixar ao nível dos objetos materiais brutos.
Isso porque o homem não está literalmente “no” mundo – o “estar-no-mundo” é simplesmente uma presença em face do mundo. Portanto, o homem autêntico pode ser compreendido como aquele que reconhece a dualidade radical entre o humano e o não humano (animais, pedras, etc...), que reconhece que o homem deve viver no mundo e que “estar-no-mundo” não implica em “estar-no-meio-do-mundo”.
Mais tarde, Heidegger irá chamar a dimensão ôntica, isto é, o “estar-no-meio-do-mundo”, de estado de “queda”: duas denominações distintas para a inautenticidade. Esse estado inautêntico de queda possui um lado subjetivo e outro objetivo. O lado subjetivo é o que Heidegger chama de “Das Man”, ou o “Se”, “a Gente” ou “Diz-se” e representa uma pseudo-subjetividade, um “Eu” degradado, uma vez que se encontra diluído em outrem:
“A queda é um estado em que o indivíduo constantemente obedece a comandos e proibições cuja fonte é desconhecida e não identificável, e cuja justificação ele não se incomoda em inquirir.”
O lado objetivo da inautenticidade é todo o mundo artificial em que o homem é lançado, prévio, e transformado tecnologicamente. É o que Heidegger vai nos revelar como “mundo público”. Cumpre-nos ressaltar que não nos aprofundaremos nos conceitos de “mundo público” e “mundo próximo”, uma vez que foge à proposta da presente pesquisa. Todavia, esses dois lados do Ser (subjetivo/objetivo) nos são relevantes na medida em que nossas categorias básicas de existência (sentimento, entendimento, linguagem) tornam-se degradadas no estado de inautenticidade:
“Deve-se, porém, advertir que a distinção e a oposição entre autenticidade e inautenticidade não implicam nenhuma valorização preferencial. A inautenticidade faz parte da estrutura do ser tanto quanto a autenticidade. "O estado de decadência do Ser-aí não deve ser entendido como uma queda de um 'estado original' mais puro e mais alto. De algo semelhante não só não temos nenhuma experimentação ôntica, como nem mesmo o caminho de uma possível interpretação ontológica." (ibid., § 38)”
Para o filósofo alemão, a inautenticidade caracteriza-se como aquela existência cujas influências asfixiam o “Dasein” em seu mundo, retirando dele a responsabilidade por suas ações. Durante esse período, que é condição de Ser, somos sugados por um conjunto de hábitos e ansiedades que não nos pertence, que vêm de fora. Nossas condutas são determinadas por motivos frívolos e medos sem razão, ao passo que o “Das Man” controla e exige o que havia de profundo em nossos sentimentos.
Contudo, ao estado de queda resta-nos questionar: como é possível livrarmo-nos dessa condição de “estar-no-meio-do-mundo”? Heidegger nos responde: somente por meio de uma drástica tomada de consciência, por meio do reconhecimento de nossa condição humana de “Ser-para-morte”. Como “ser-no-mundo”, imerso na inautenticidade, o homem traz em si a capacidade, pela angústia, de deparar-se com a verdade essencial de sua existência, a condição de ser temporal. A temporalidade é revelada na mortalidade inevitável, uma condição intransponível na realidade da existência, contra a qual não é possível bulir as regras. É tal situação angustiante que traz ao homem a consciência da morte.
Ao despertarmos e termos ciência de que somos finitos, somos tomados por essa angústia dilacerante e reveladora, que nos mostra a dualidade radical entre o humano e o não humano e entre o “estar-no-mundo” e o “estar-no-meio-do-mundo”. Desse modo, o nível da consciência através do qual o homem tem acesso ao mundo é aquele que acolhe à voz do Ser e consente em ser o “pastor do Ser”.
Ocorre que em Ser e Tempo, parece-nos que Heidegger buscou definir o homem autêntico exclusivamente em termos de sua atitude para com a morte, definindo-o como aquele que foge ao cotidiano trivial, reconhecendo sua condição de mortal e encarando-a com honra e coragem. Há dois pontos que nos chama atenção na referida obra: a ciência de um fim último como caráter intensificador da vida e da individualidade e a morte como necessidade ontológica. Vejamos:
O reconhecimento da condição humana, à luz de uma perspectiva heideggeriana, culmina numa espécie de técnica por meio da qual o homem inautêntico alivia o medo da morte. Tal técnica consiste, essencialmente, em despersonalizar a morte, reduzindo-a a uma categoria abstrata e universal, a um fenômeno puramente biológico ou social, sem qualquer caráter espiritual.
Para ilustrar tal entendimento, Heidegger recorre ao escritor Tolstói, em A morte de Ivã Ilitch, mostrando-nos o “despedaçamento e colapso do Morre-se ”. Quando nos vemos obrigados a enfrentar essa verdade de morte, a vida presente é tomada por outro sentido, um sentido mais profundo que a simples trivialidade do passar dos dias, numa espécie de carpe diem tardio.
O outro ponto que nos interessa nos escritos heideggerianos é a distinção da morte como expressão de um fim último e invencível, que de modo algum pode ser superado. Há, portanto, uma espécie de crença de que a morte é uma necessidade do Ser e que, uma vez inevitável, pode ter seus efeitos mitigados por meio do reconhecimento desse caráter indelével e por meio da aceitação da angústia existencial que tal pensamento nos traz:
“Se, porém, numa decisão resoluta, abraçamos nossa finitude e assumimos ativamente nosso “ser-para-morte”, poderemos moderar esse terror muito mais eficazmente de que desejando a imortalidade pessoal.”
É que, para Heidegger, assumir a nossa condição finita significaria aliviar o terror original que a morte nos inspira e, mais que isso, consistiria numa comunhão com mundo de maneira a nos situar numa totalidade impossível em vida: na morte, somos a totalidade que não pudemos ser em vida. Entretanto, ainda vivos, podemos nos antecipar em direção à morte, reconhecendo-a como expressão necessária do Ser e adotando um ponto de vista sobre nós como totalidade.
B)O SUPOSTO JARGÃO
Entre os anos de 1962 e 1964, Theodor W. Adorno escreveu “O jargão da autenticidade”, obra que se insere como expressão maior de um contexto de inúmeras críticas voltadas ao pensamento existencialista e heideggeriano, principalmente. O fato é que, muitas vezes associadas à adesão nazista de Heidegger, as críticas que pairam sobre o cenário político e filosófico da época merecem, sob análise, certa dose de cautela, para que sejam evitadas maiores digressões.
Incongruências à parte, parece-nos que o que Adorno buscava, afinal, era desqualificar o discurso sobre o “ser-para-morte” heideggeriano intitulando-o como mero jargão sobre a problemática da autenticidade, de modo que se fizesse transmitir que, em pensadores de um período pós-guerra, tudo não passava de falatório lírico encobridor de questões sociais mais sérias, fruto de uma elite alemã e, muitas vezes, francesa, catastroficamente emergentes e frágeis no que concerne ao pensar filosófico:
"Provavelmente em nenhum lugar a sua filosofia, e tudo que com ela bóia até os esgotos da crendice alemã no Ser, será mais alérgica que nesse ponto.”
Negando ao pensamento heideggeriano qualquer mérito ou originalidade, Adorno prossegue em seu ostensivo intento, tratando-o como prestidigitação, ardil ou falsa erudição, num tom de absoluto descaso, ele confessa clara hostilidade quando nos fala sobre o “asco ao jargão”.
Ora, ocorre que a desconfiança quanto ao aparato intelectual nos é apontada para Adorno, e não para Heidegger. Mesmo recusando qualquer possibilidade de construção ética ou transformação de si por meio de uma postura que reconhece o entendimento heideggeriano acerca da inexorabilidade da morte, Adorno tenta nos convencer de que a novas abordagens científicas é que abrem caminho para uma possível superação.
Contudo, o que vemos nesse esmiuçado ressentimento desconstrutor é que nem mesmo a ciência como cura - e isso é o que nos parece crendice – poderia alterar a irremissibilidade da morte para o Dasein. Desconsiderando as dimensões ôntica e ontológica de Ser e Tempo, Adorno nos parece incapaz de notar que o conceito ontológico-existencial de morte que o livro persegue tem a ver, sobretudo, com uma possibilidade, da qual o Dasein, como ente compreensivo e capaz de projeções, não se pode ver livre. Trata-se, em suma, de uma intensa e admirável preocupação com a totalidade do Ser, pendente, digna de discussão acadêmica e séria reflexão.
Pretendemos, portanto, de forma breve e dentro dos limites possíveis, contestar com veemência a mencionada obra de Adorno, para que melhor se compreenda a idéia de autenticidade e, em especial, a noção heideggeriana de autenticidade.
O pretensioso texto de Adorno nos invoca a consentir em denunciar uma série de conjuntos de hábitos discursivos perniciosos que estavam em voga na época, mais ou menos em meados da década de 50, 60, mais precisamente sobre o termo “autenticidade”, utilizado pela primeira vez por Karl Jaspers. Com relação a origem e disseminação desse jargão, o filósofo da escola de Frankfurt parece crer que há uma espécie de conexão invisível, por meio da linguagem, entre ação e pensamento.
Destarte, não podemos dizer que a disseminação de um pensamento mais profundo e supostamente ameaçador se justifica como fruto de elitismo pessoal ou como estratégia de proteção ante o que se desconhece. Entretanto, é válido lembrar que quem nos encaminha ao universo ideológico marxista por meio de releituras e conceitos truncados não é Heidegger. De acordo com Edgar de Brito Lyra Netto, doutor e professor do departamento de Filosofia da PUC-RIO:
“(...) certa ojeriza "sociológica" a uma espécie de filisteísmo espiritual, mais preocupado com a essência do homem do que com sua dignidade coletiva e concreta. Melhor dizendo, a insistência numa abstrata essência do homem estaria permeada por um irracionalismo camuflador de anseios de proteção e dignidade, típicos de uma classe acostumada a privilégios, sob a capa de formidáveis verdades onto-antropológicas.”
Ao que nos parece, é interesse de Adorno, e não de Heidegger, recair sobre apropriações que confirmem um rebuscado modo de pensar. O irracionalismo desmedido e que supostamente afastaria o homem do campo da ação não nos conduziria ao reacionarismo, mas à ratificação de é que Adoro que detém a razão e saber “verdadeiros”. Bem se vê que a preocupação do autor não se reduzia apenas ao jargão lingüístico, mas ao receio de que certo tipo de pensamento, batizado de subjetivista, se propagasse.
Ousamos dizer que, quando Adorno nos fala de certa doutrina que “difama a objetividade como coisificação e, em segredo, fomenta o irracionalismo” , estaria, em verdade, sugerindo uma autodefesa que recolocasse os argumentos marxistas sobre qualquer diálogo com o “Eu”, descaracterizando a problemática existencial, ao alegar que haveria uma “via reacionária própria dos existencialistas” que não se pode sobrepor aos “verdadeiros” e “condizentes” padrões políticos e sociais.
Na presente pesquisa, não nos interessou analisar se Adorno possui ou não fundamentos para alcunhar aqueles pensadores de reacionários ou burgueses. O que propusemos brevemente fora contestar o trabalho adorniano, sem desmerecê-lo, de modo a concluir que o mesmo se trata de uma característica inversão de valores, típica dos frankfurtianos, filhos de Hegel, atentos à objetividade e à positividade instrumental da razão.
2. CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Já mencionamos que a proposta heideggeriana não se inclina a desvendar as desenvolturas de um mísero jargão lingüístico, tampouco a propagar o pedantismo pela comunidade alemã, na segunda metade do século passado. Da mesma forma, por meio da leitura e das citações selecionadas, constatamos que o conceito de autenticidade em Heidegger só é visualizado se discernimos o plano da morte, da angústia e da totalidade do Ser.
Entre dúvidas e evidências, questionamos como seria possível nos livrarmos da condição de inautenticidade ou, ao menos, abrandá-la. E tudo isso nos serviu de base para concluir que, em Heidegger, mais que um simples projetar-se humano, o caminho da busca pela autenticidade nos conduz ao universo da liberdade, mas de uma liberdade que só se perpetua no mundo. E se é, de fato, a existência que dá origem a essência, a liberdade é o cerne que define a problemática da autenticidade, porquanto a criação do essencial implica em liberdade e, por fim, em autenticidade. É a liberdade criadora que elege escolhas que caracterizam o homem como um Ser efetivo de possibilidades.
É por constituir-se exatamente como um Ser de liberdade e encontrar-se em um universo de faticidade que o homem é capaz de assumir, por si, a condição de projeto destinado à realização, isto é, que ele tem capacidade de, estando consciente de sua situação de abandonado a sua própria responsabilidade, guiar-se sob o ponto de vista da totalidade em meio ao mundo - lugar onde ele é chamado a ser projeto, construção de si mesmo. Desse modo, verificamos que cabe ao homem, como Ser livre, a decisão de dar à sua própria existência o sentido que melhor lhe convém.
Portanto, concluímos que o pensamento heideggeriano, na fuga de um niilismo avassalador outrora anunciado por Nietzsche, ao descartar estruturas de massificação, pode ser o verdadeiro propulsor que nos conduziria à construção de um sujeito autêntico na medida de suas projeções, único no mundo e plenamente capaz de edificar e rever seu modo de Ser e de pensar.
Se Heidegger ousaria dizer o mesmo, não sabemos. Mas em meio a tantas discussões hermenêuticas, ainda que fosse considerado um jargão vulgar, o conceito de autenticidade parece nos proporcionar mais projetos e ações que qualquer borrão sem sentido de uma objetividade que não convence.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Mestre Jou, São Paulo, 1982.
ADORNO, Theodor W. The Jargon of Authenticity. Routledge & Kegan Paul, Londres, 1973.
ARVON, Henri. A Filosofia Alemã: A Filosofia Existencialista. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978.
HEIDEGGER, Martin. Ser y Tiempo. Edición Electrónica, Escuela de Philosophia Universidad ARCIS, Santiago, 1988.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Vozes, Petrópolis, 1993.
HEIDEGGER, Martin. The way back into the ground of Metaphysics: publicado em Existencialismo: De Dostoevsky a Sartre, Meridian Books, Nova York, 1956.
NETTO, Edgar de Brito Lyra. Sobre o pensamento filosófico e sua sobrevivência no mundo técnico, PUC-RIO, Rio de Janeiro, 2003.
OLSON, Robert G. Introdução ao existencialismo. Brasiliense, São Paulo, 1970.
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um humanismo. Presença, Lisboa, 1984.
sábado, 8 de maio de 2010
Palavra-chave
Não obstante a palavra “Filosofia” comporte diversos significados, entusiastas a tomam, no mais das vezes, nos extremos da perplexidade ou do desdém. Da mesma forma que o termo causa repulsa em alguns, em outros, ele renasce como admiração. Por vezes, basta sussurrar a “palavra mágica” para que jovens alunos comecem a se coçar ou a arrancar os cabelos, tamanha a chatice que lhe é atribuída. A “Filosofia” e os estudos filosóficos acabam se tornando chatices porque não são introduzidos aos jovens de maneira a despertá-los. Trata-se de apenas mais uma disciplina em que o aluno tem de alcançar certa nota para a aprovação; uma disciplina que exige do aluno leitura atenta e boa redação e que é recebida como mera obrigação acadêmica da qual não se deve discordar nunca.
Entretanto, o referido termo também causa espanto e admiração. Inúmeras vezes, com um quê de absurdidade, ouvi a seguinte frase: “Puxa! Você estuda Filosofia mesmo?”, como se se tratasse de uma tarefa dificílima e aterrorizante, digna de poucos homens obstinados que, ao longo da história, fundaram ou pretenderam fundar uma verdade eterna.
Longe de querer tecer comentários acerca do ensino de Filosofia no Brasil ou sobre a beleza de se estudar o termo em questão, o tema que proponho esmiuçar tem por base a importância da origem dos significados e sua multiplicidade para compreender como a linguagem nos afeta.
Interessante seria sugerir como primeira leitura a comédia do Anfitrião, de Plauto, mito esquecido, mas tantas vezes encenado nos palcos gregos e que desencadeou um número considerável de obras literárias.
O mito nos conduz a história de Anfitrião, primo e marido de Alcmena que, tendo saído em viagem para a guerra de Tebas, em companhia de seu criado e companheiro Sósia, fora surpreendido por Zeus. O supremo deus do Olimpo, apaixonado por Alcmena, decide consumar seu amor e, para ludibriá-la, cria uma espécie de réplica de Anfitrião - figura que possui todo o seu aspecto, mas que, em verdade, é o próprio Zeus – e faz com que seu filho Hermes se transforme na figura de Sósia, o escravo, para que o lar fosse vigiado e Zeus pudesse ser alertado caso alguém aparecesse.
Entretanto, o referido termo também causa espanto e admiração. Inúmeras vezes, com um quê de absurdidade, ouvi a seguinte frase: “Puxa! Você estuda Filosofia mesmo?”, como se se tratasse de uma tarefa dificílima e aterrorizante, digna de poucos homens obstinados que, ao longo da história, fundaram ou pretenderam fundar uma verdade eterna.
Longe de querer tecer comentários acerca do ensino de Filosofia no Brasil ou sobre a beleza de se estudar o termo em questão, o tema que proponho esmiuçar tem por base a importância da origem dos significados e sua multiplicidade para compreender como a linguagem nos afeta.
Interessante seria sugerir como primeira leitura a comédia do Anfitrião, de Plauto, mito esquecido, mas tantas vezes encenado nos palcos gregos e que desencadeou um número considerável de obras literárias.
O mito nos conduz a história de Anfitrião, primo e marido de Alcmena que, tendo saído em viagem para a guerra de Tebas, em companhia de seu criado e companheiro Sósia, fora surpreendido por Zeus. O supremo deus do Olimpo, apaixonado por Alcmena, decide consumar seu amor e, para ludibriá-la, cria uma espécie de réplica de Anfitrião - figura que possui todo o seu aspecto, mas que, em verdade, é o próprio Zeus – e faz com que seu filho Hermes se transforme na figura de Sósia, o escravo, para que o lar fosse vigiado e Zeus pudesse ser alertado caso alguém aparecesse.
Fingindo ser Anfitrião, Zeus toma Alcmena como esposa; quando retorna da guerra, Anfitrião e Sósia confundem-se, uma vez que a esposa apaixonada afirma a presença constante de ambos. Para desfazer o mal-entendido e resolver a crise de identidade, Anfitrião consulta Tirésias - o grande adivinho - que lhe dá a chave para o enigma. Mesmo assim, preocupado, Zeus vai ao encontro de Anfitrião e lhe explica o ocorrido, desfazendo a confusão.
Anfitrião, ao invés de se tomar por traído ou agredido, cumprimenta Zeus pelo feito e se sente honrado pela escolha do supremo Deus. Resultantes dessa união entre Zeus e a mortal Alcmena, nascem os gêmeos: Íficles, filho de Anfitrião, e Hércules, filho de Zeus.
Da aceitação pacífica de Anfitrião tem-se para a eternidade o próprio significado da palavra como substantivo: o chefe de um lar que recebe delicadamente os convidados. Do mesmo modo, até os dias de hoje, a palavra sósia, também substantivada, designa um sujeito muito parecido com outro ou o duplo de outrem.
Anfitrião e Sósia são apenas exemplos de palavras cuja origem e significado primeiros foram arbitrariamente esquecidos por nós. Esse esquecimento do que é distintivo, fruto da representação humana, é, em verdade, próprio do processo de formação de conceitos.
A formação de conceitos e a busca pela verdade serão os próximos assuntos a serem desenvolvidos por aqui. Por enquanto, nos contentaremos com a beleza e organização do mito: a potência ameaçadora dos conceitos.
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